09/04/2018

Oportunismo



13/03/2018

O Câncer e os Cuidados Paliativos - Psicóloga Silvana Aquino


            A Casa da Mulher Nilopolitana, centro de referência em atendimento à mulher vítima de violência doméstica, pertencente à Secretaria Municipal de Cidadania e Direitos Humanos em Nilópolis, RJ está realizando diversos eventos durante todo o mês de março em homenagem ao Dia Internacional da Mulher.
                O evento desta última terça-feira, dia 13, foi uma Palestra sobre Cuidados Paliativos com a Professora e Psicóloga Silvana Aquino que iniciou a palestra congratulando-se com a Equipe da Casa da Mulher Nilopolitana. “Em um mundo individualista, aqui é um espaço onde se trabalha de forma comunitária” disse.

Fotografia de Roberta Nobre


                  A psicóloga abriu o discurso sobre cuidados paliativos questionando aos presentes, sobre quem cuidava de si. Em seguida reforçou que é impossível cuidar do outro se não cuidar de si mesmo, pois, se dou tempo para o outro, tenho que reservar tempo para mim.
            Relembrou sobre as doenças com as quais precisamos conviver e que são de difícil tratamento ou não têm cura, como o Mal de Alzheimer, a Diabetes, o HIV, até que chegou ao câncer.
            A psicóloga exibiu parte da entrevista da atriz Márcia Cabrita no programa do Jô em que a atriz expôs suas angústias na época em que teve que enfrentar o câncer e que não foi fácil, pois, as pessoas pediam para que ela fosse forte e tivesse pensamentos positivos. Márcia afirmava não ter conseguido ser positiva logo no início da doença e o que a fez encontrar uma forma de aliviar a ansiedade, foi a abertura do blog em que escrevia sobre toda a dificuldade que passava.
            Silvana falou que o caso da atriz foi um caso de recidiva do câncer, pois, o câncer voltou a manifestar-se após ter sido controlado em um determinado momento. Silvana trouxe algo novo para mim que foi o fato de que antes de cinco ano de reaparecimento de um novo câncer, não se pode dizer que a pessoa foi curada, mas sim que a doença foi controlada, pois, ela pode voltar.
            De forma bastante didática, Aquino respondeu o que pode causar a doença:
                  – Substâncias Químicas, como a nicotina;
                  – Vírus, como HPV que pode causar o câncer de próstata ou de vulva;
        – Hormônios, pois a falta de um ou outro pode afetar o sistema imunológico;
                  – Mutações genéticas, fator familiar; e
                  – Estilo de vida, como sedentarismo e obesidade.

            Silvana diz que dos tratamentos mais comuns estão a radioterapia, a quimioterapia e a cirurgia, embora, o tipo de tratamento pode variar de pessoa para pessoa, ou seja, não há um tratamento único, pois, cada caso é um caso.
            Ao finalizar a parte sobre o câncer e dizer que a estimativa para as pessoas acometidas pela doença em 2018-2019 ser de ao menos 1.200 pessoas aproximadamente, explica sobre os cuidados paliativos.
            A psicóloga explica que quando as pessoas pensam em paliativo, elas pensam em remendo, algo feito de qualquer jeito. Mas que paliativo significa proteção, segurança.
            Ou seja, cuidados paliativos dizem respeito ao cuidado de pessoas acometidas por doenças que não serão modificadas pelo tratamento e medicamentos. Explica ainda que o cuidado paliativo não é só para o doente, mas para a sua família, pois, a mesma precisa conhecer e se informar sobre a patologia que acometeu o familiar cuidado por ele e, que é um tipo de cuidado mais humano, para dar suporte às pessoas que se ama, já que a dor dela não é só física, uma vez que a morte é iminente e que poucas pessoas conseguem lidar com ela ou dialogar sobre, ainda que seja algo natural, porque, não se pode fugir da realidade.
            Inicialmente os Cuidados Paliativos se referiam apenas ao tratamento do câncer, mas atualmente se refere a qualquer doença progressiva e que não tenha cura.  
            Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), "cuidados paliativos consistem na assistência promovida por uma equipe multidisciplinar, que objetiva a melhoria da qualidade de vida do paciente e seus familiares, diante de uma doença que ameace a vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, da identificação precoce, avaliação impecável e tratamento de dor e demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais".
            Silvana ressalta que tratar de um sofrimento que não de pode curar, é necessário para a dignidade da pessoa, mesmo não sendo algo fácil de conseguir, já que a saúde pública como um todo, tem estado bastante precária. Contudo, ela enfatiza que existe e que é possível reivindicar, já que somente 8% das pessoas no mundo têm cuidados paliativos.
     A psicóloga Silvana Aquino finaliza sua palestra ouvindo alguns questionamentos, experiências de vida e respondendo as dúvidas colocadas sempre de forma muito respeitosa e agradável, mesmo se tratando de assuntos extremamente delicados.



Fotografia de Roberta Nobre

05/03/2018

Cinco lições da telenovela Sou Luna - 1ª Temporada

       Sou Luna é uma telenovela voltada para o público adolescente, onde os personagens cantam, dançam, andam de patins, compõem músicas e se apaixonam com a mesma frequência que o elenco feminino troca as cores do esmalte das unhas. rs     

            O andamento da novela é um pouco arrastado (normal, como todas as novelas), alguns personagens são bastante caricatos, mas o que aprecio é a qualidade das músicas, das coreografias, a atuação, a realidade distinta dos adolescentes que convivo, cenário, figurino, diálogos bem próximos ao real, a trama romântica e as mensagens reforçadas de superação, autoestima e coragem.
              Assisti pela Netflix onde está disponível somente a 1ª temporada e as lições que a novela e seus personagens me passaram e que me fizeram refletir foram as seguintes:

1- Ser persistente / LUNA
            A personagem central da história, quando coloca algo na cabeça, ninguém tira. O que é bacana e crível, é que nem sempre ela consegue obter êxito naquilo que almeja, mas Luna não desiste, ainda que a Tamara, sua treinadora ou seu melhor amigo Simón, digam que é arriscado demais ou que não vai dar certo. Ela tenta inovar propondo novos passos às coreografias mesmo com pouco tempo de ensaio, arriscando acrobacias complexas demais a fim de superar-se e não importa o que a Âmbar faça para detê-la, ela nunca se abala.



2- Ser humilde, pedir ajuda quando necessário / RAMIRO
            O personagem Ramiro é o típico narciso (o cara que se acha). Sim! Ele dança bem, canta bem, é lindinho! Mas precisa ser mais humilde. Aliás, sabe-se que quando a pessoa apresenta complexo de superioridade, é porque no fundo, se sente inferior. Mas quando Ramiro começa reconhecer o talento das pessoas ao seu redor e a inclusive pedir auxílio para gravações de vídeos, ajuda com figurino, coreografia e composições de músicas, ele consegue de fato ter mais visibilidade e ser muito melhor. Quando Jobim canta: "É impossível ser feliz sozinho..." Por favor, acredite!



3- Confiar nas próprias possibilidades / JIM
            Se por um lado é preciso descer do palco, quando nos inferiorizamos também não é legal. Precisamos confiar em nossa capacidade, compreender nossas habilidades, ter consciência daquilo que fazemos bem e em que somos bons. Nem se sentir o melhor, nem se sentir o pior. Isso se chama equilíbrio! A todo momento, Jim reconhecia seu talento para uma montagem coreográfica e não se detinha para oferecer ajuda, nem se escondia quando tinha a oportunidade de mostrar os passos que havia criado.




4- Valorizar quem está ao seu lado / JIM e YAM
            É uma dupla com um tipo de amizade que quase não se vê mais. As meninas brigam, sim! Porém, encontram sempre motivos para se perdoarem e voltarem a se falar. Coisa que raramente um adulto faz. Às vezes, os conflitos entre elas ocorriam por questões muito simples e banais, então, a importância do diálogo para uma amizade tão forte, de cumplicidade e lealdade como essa, ficou evidente. O fato, é que elas sabiam que eram especiais uma para a outra e valorizavam isso. 




5- Fazer o que gosta mesmo estando inseguro / NINA
            Essa personagem foi a que eu mais me identifiquei. Principalmente pela sua habilidade na escrita, seus gostos peculiares, diferentes das pessoas de sua idade em relação aos livros e filmes. Também por seu medo e insegurança tanto para revelar sua verdadeira identidade, andar de patins, cantar e falar com o cara que gosta. Curtia muito os diálogos da Nina com sua mãe, as dicas que ela dava para a amiga Luna, as frases que postava como Felicity for Now e os conselhos que recebia do pai. Nina é a personagem que evoluiu ao longo da série e é essa maturidade que a sociedade espera dos jovens.      



– ...então eu estava pensando em abrir uma conta própria. Pra poder escrever o que eu quero e publicar as minhas próprias fotos. Você acha que é uma má idéia, né?
– Não! Como ia achar uma má idéia? Excelente! Seria perfeito! Faça isso! Nem pense! Só faça, Nina!
– E se ninguém me seguir?
– E o que importa? E daí se ninguém te seguir? Não! Não importam as curtidas, não importam os seguidores, o importante é você fazer o que realmente você quer e sente. Se quiser fazer... Você faz! 
(Dálogo de Nina com o pai - Capítulo 19, Temporada 1)

 
E então... Você assistiu ou assiste a série? Ansioso para terceira temporada? Qual o personagem que você mais curte? Não assistia, mas curtiu a postagem? Aprendeu algo? Conta pra MISS!

09/02/2018

Livro: Todos contra todos - O ódio nosso de cada dia / Leandro Karnal #resenha

“As crianças contemporâneas (especialmente as que têm mais de 50 anos como eu) batem o pé, fazem beicinho, mandam mensagem no WhatsApp e argumentam. Mas, como toda criança, não ouvimos ninguém. Ou melhor, ouvimos desde que o outro concorde comigo; então ele é sábio e equilibrado.” p.13




Título do Livro: Todos contra todos – O ódio nosso de cada dia
Autor: Leandro Karnal
Editora: LeYa
Ano: 2017
Páginas: 143
Assuntos: Aspectos sociais; discriminação; preconceito e antipatia.


          A prática da leitura além de promover o entretenimento, permite a identificação e organização dos sentimentos, pensamentos e ideias. Foi o que esse livro me proporcionou.
         Karnal utiliza uma linguagem de fácil interpretação, trazendo concepções bem-humoradas, reflexivas, conflitantes e, por ser historiador e professor, também é bastante didático.  
         O historiador discursa sobre nossas pequenas maldades diárias, fala de Freud e psicanálise, apresenta contextos ao longo da história, fala de política e diz que o Brasil é um país sem grandes catástrofes naturais como os terremotos, tsunamis, vulcões e que por muitos anos reforçamos nossa imagem de um povo amistoso; que historicamente ocultamos o termo “guerra” de nossa história, mas elas aconteceram e foram bastante sangrentas, e, por termos horror ao termo, os livros de história, o amenizam chamando vários massacres e conflitos de “revolta”.
         O fato de sermos um povo hospitaleiro e alegre, não quer dizer que não tenhamos uma face violenta a qual tentamos a todo custo, ocultar sem sucesso algum.
         Os dados sobre a realidade do trânsito são assustadores. De acordo com Karnal, segundo o Observatório Nacional, o trânsito no Brasil faz certa de 40 mil vítimas por ano (dados atualizados, mostram que esse número cresceu consideravelmente).

“Somos um país violento. Violentos ao dirigir, violentos nas ruas, violentos nos comentários e fofocas, violentos ao torcer por nosso time, violentos ao votar.” p.10

         Karnal ressalta que o ódio surge principalmente quando nos sentimos ameaçados, quando o sucesso do outro traz à tona nosso fracasso, ou quando não concordam conosco, ou seja, é mais fácil rotular o outro de machista, esquerdista, feminazi, burro ou outro rótulo qualquer, do que dialogar argumentando. Se alguém não concorda conosco, lhes fechamos a porta de qualquer diálogo. Sem contar que terceirizamos nossas responsabilidades e falhas. A culpa é sempre do outro, nunca nossa.
         Todo o contexto que Karnal oferece para fundamentar suas ideias é bastante elucidativo. Ele recheia o livro de preciosas referências literárias como Memórias de um sargento de milícias, Casa grande & Senzala, O tempo e o vento, 1984, Raízes do Brasil, entre muitos outros.
         O que compreendi ser a maior lição contida no livro é a importância de reconhecer o quanto podemos ser cruéis em relação a algo que não gostamos. E a importância também de reconhecer o sentimento de ódio e não negá-lo, pois, se o identificamos e o compreendemos, é muito mais fácil tratá-lo. Este reconhecimento é imprescindível, porque não há como tratar algo que se diz não ter.

“O ódio sempre existiu e flui por todos os lados. Não é fácil existir e acumular fracassos, dores, solidão, questões sexuais, desafetos e uma sensação de que a vida é injusta conosco. O mais fácil é a transposição para terceiros.” p.11

         O autor ressalta que o fato de alguém odiar algo, diz muito mais sobre quem odeia, do que quem é odiado.
         Alguns exemplos colocados no livro sobre a fonte de nosso ódio estar em nós e não no outro, foram as seguintes:
         – As mulheres passaram a ter direitos iguais e por isso estão ganhando espaço no mercado de trabalho, isso reduz as vagas para os homens, odeio o feminismo por isso;
         – Trabalho doze horas por dia, mas você acorda tarde, odeio essa sua atitude e digo que eu sou a virtude, pois, trabalho e você é preguiçoso, ou seja, culpo a sua preguiça, para não dizer que estou esgotado por excesso de trabalho;
         – Odeio as cotas raciais, porque os negros estão entrando nas universidades e ganhando espaço, quando na verdade, eu não consigo assumir uma vaga;
         – Odeio a Anitta porque ela faz um sucesso que deveria ser meu;  ­
       – Um homem fracassa no seu projeto amoroso. O que é mais fácil? Culpar o feminino ou a si? A resposta é fácil.
      

         
    
        De acordo com Karnal, a internet maximizou a expressão de ódio e intolerância, mas a internet não produziu os idiotas, estes puderam atacar de forma anônima e por isso, covarde, com uma energia muito grande, com certa “proteção” formando grupos de pessoas com pensamentos semelhantes.
          Discordo veemente de sua opinião de que o ideal cristão de amar aos inimigos seja uma utopia. Se ele não consegue e não vê propósito, é um problema dele. rs Não que seja algo fácil, mas é possível! Karnal faz afirmações segundo sua própria interpretação do que é ser cristão e falha. Bem típico de um não cristão que conhece a Cristo de forma técnica e inexpressiva.
         Enfim, o livro é bastante introspectivo. Considero leitura obrigatória! Para quem? Para todos! Pois, o ódio é um sentimento humano e por isso, acomete a todos nós e compreendê-lo, não é tarefa fácil, mas imprescindível para sermos melhores.

“Por isso que digo que para entender o Brasil, nós precisaríamos de mais de Freud que de Marx. Mais subjetivo e psicanalítico do que generalizado.” p.21

05/01/2018

Em-Ponderando


          Um copo com água lhe foi entregue. Estava à sua frente, depositado na mesa. Segurava um pedaço de papel em uma das mãos, que servia para abarcar as lágrimas que caíam enquanto relatava diversas violências que sofreu, quando sofreu, onde sofreu e quem as fez sofrer.

          Com a escuta atenta, disfarçando a expressão tensa, eu teria que saber qual o tipo de violência. Se psicológica, sexual, moral, física ou patrimonial. Pelo relato prestado, foram todas. É nosso dever especificar o tipo de agressão e, como tenho “sorte”, em meu primeiro atendimento no estágio de psicologia em um local que atende mulheres vítimas de violência doméstica, tinha mesmo que ser alguém muito sofrido.

          Dentre muitas consequências da violência, estão pesadelos constantes durante a noite e uma reação fisiológica que constrange a vítima por se desencadear toda vez que seu cérebro percebe que ela está em perigo, mesmo que o agressor esteja a quilômetros de distância. Qualquer traço fisionômico semelhante, já provoca nela uma sensação nauseante.

          A vida que vivia, não era dela, estava em posse de seu companheiro que de forma bem hostil, a utilizou como quis, determinando ao seu modo como ela deveria comportar-se e principalmente, onde ela não deveria ir. Como se fosse possível alguém apreender e enclausurar a volição alheia.

         Olhando para o papel em suas mãos, percebo que ele se desfaz a cada palavra por ela proferida. Ela o esfrega, o reduz em pequenos pedaços, o esfarela...

          Olho para aquela cena enquanto escuto várias outras situações constrangedoras a que foi submetida, percebendo que ela faz ao papel, o que a ela foi feito.

          "Eu posso beber água?" – perguntou.

          “Você não precisa me pedir permissão para beber um copo de água que é seu” – respondi.

          Mais lágrimas caíram de seu rosto ao se tocar sobre o peso de submissão e nulidade que sua vida havia se tornado. 

          Corri os olhos sobre a mesa à procura de um objeto. Pego um peso de papel com uma bela flor no topo e digo: “Se eu o coloco aqui no centro desta mesa e saímos da sala, ele ainda estará aqui quando retornarmos. Ele não tem vida, nem vontade própria, não pode se locomover sem que eu ou qualquer outra pessoa o tire daqui.”

          Novas lágrimas, para um drama antigo...

          Novos embargos...

          Novas situações relatadas...

          Novas intervenções realizadas e...

          Depois de tudo, um novo olhar! 

          Uma pausa longa no choro e nos tremores de suas mãos.

          Para depois de vários instantes, um sorriso invadir-lhe a face, compreensão e empatia encherem os semblantes e ambas as expressões se tornarem leves.

          E como um objeto que, ao cair no chão devido à gravidade, provoca um ruído estrondoso, sua consciência se refaz de forma súbita e o turbilhão de expectativas que se deu naquele espaço foi ensurdecedor.

          Então, terminado o acolhimento, ouvi várias promessas de retorno, recebo um sorriso, um abraço e um agradecimento. Mas fui eu quem agradeceu mesmo de forma silenciosa, por testemunhar algo poderoso. Pois, pela força que seus olhos expressavam, eu imaginava que mais uma fortaleza se levantava e as consequências de suas ações ao erguer-se, poderiam ser bem mais avassaladoras. Porque quando alguém quebrado busca energia para se restabelecer, é quase impossível que forças externas, a paralisem novamente.

          E logo depois de terminado o atendimento, ponderei e percebi que descobri na prática o que o significado de emponderar elucida. Que é encarregar, confiar a alguém, dar poder, atribuir a alguém ou a si mesmo... Ou seja, não permitir que alguém anule sua liberdade de tomar decisões sobre sua própria vida.

          A não concessão de qualquer tipo de violência é algo muito novo para uma mulher e fisicamente ela já estava livre de toda opressão, mas cada agressão ainda a aprisionavam em dores violentas.

          Há muitos anos atrás, meu sonho era lidar com esse tipo de situação e eu jamais imaginei que pudesse ser tão difícil, tanto o durante, como o depois do atendimento.

          Pois agora, entendo que não sei exatamente se estava certa quando pude olhar para ela há alguns meses atrás e julgar ter encontrado nela força para que ela mesma comande sua própria vida e tome suas próprias decisões. Mas não posso dizer também que eu estava errada, porque talvez tenha partido dela mesma, a decisão de não mais me procurar.

21/12/2017

Bloqueio

        
Foto meramente Ilustrativa. Fonte: Freepik

             
         Voltava do treino quando recebi a mensagem. Achei tão apelativa... Na época, achava Lúcia a pessoa mais estranha do mundo. Por dentro principalmente. Irritava-me o seu jeito tão sentimental.
         Olhei sua fotografia de perfil e fixando os olhos em sua cicatriz no pescoço, pensei que ela poderia ter tirado de um ângulo melhor. Lembrei-me do acidente e de tê-la ajudado no momento em que ela mesma classificou como o pior de sua vida.
         Depois deste fato, ela passou a chamar-me de anjo. Eu pensava que era por incapacidade dela em pensar em um apelido mais depreciativo. Era a única pessoa que me via dessa forma, apesar de eu jamais permitir que alguém me conhecesse a fundo.
         Se ela soubesse que eu era o oposto do anjo que ela imaginava que eu fosse, iria ser difícil tê-la por perto e, eu não podia me dar ao luxo... Os poucos contatos que eu conservava, eram reservas para quando eu precisasse de alguns favores.
         Enfim... Lúcia, Maya e eu, havíamos nos reunido no mesmo bar que tínhamos frequentado há muitos anos, na época em que trabalhávamos juntos.
         Lúcia, como eu pensava, sempre insuportavelmente sensível, repetia todo o tempo o quanto era bom estarmos ali e o quanto aquele momento era raro.
         Maya contava que havia sido demitida da empresa em que trabalhava como arquivista.
         – É melhor ter paz do que ter dinheiro – falou Lúcia tentando confortar Maya no intuito de fazê-la sentir-se melhor por estar longe do estresse que era seu trabalho, ainda que tivesse problemas financeiros.
         – Você não tem paz se o dinheiro lhe falta – balbuciei mais para mim mesmo, confrontando o consolo piegas de Lúcia que eu sempre achava muito chato. Elas ouviram. Não responderam. Concordaram comigo, só não admitiram.
         Alguns longos segundos de silêncio foram quebrados por Maya que continuou relatando as perdas de sua vida e, dessa vez, falava do término de um relacionamento. Eu apenas balançava a cabeça bebendo a cerveja, fingindo ouvir. Nada disse.
         Lucia que despejou mais uma pérola:
         – Isso era um relacionamento abusivo.
         – Não exagera! – respondeu Maya e em seguida, para se livrar dos conselhos de Lúcia, perguntou sobre minha vida amorosa.
         – Igual como sempre – respondi.
         – Como igual?
         – Inexistente! Minha vida sexual está bem ativa, obrigado! – riram.
         Lucia olhou ao redor e como se julgasse mais feliz do que eu, Maya e o restante das pessoas do local, quase subindo na mesa, falou mais alto que a música que tocava:
         – Já eu, me caso em maio.
         – Com o advogado? – tentando demonstrar desinteresse para que ela aprendesse que aquilo não era uma notícia que mudaria nossas vidas, perguntei olhando por cima dos ombros no intuito de pedir ao garçom uma porção de fritas. Já Maya, simulava um ataque do coração.
         Dez minutos depois de uma história enfadonha e clichê que ela contava como se fosse um romance digno de um Oscar, ela deu um embrulho para mim e outro para Maya, dizendo que foi por isso que mandou mensagem marcando o encontro com nós dois àquele dia.
         Abrimos. Era uma garrafa de vinho para cada. Em um rótulo personalizado, meu nome na garrafa entregue a mim e o nome da Maya na dela, seguido de um pedido para sermos seus padrinhos de casamento.
         Bom, se antes Maya estava simulando um ataque do coração, depois desse momento ela parecia agonizar. Deu um grito agudo, pulou da cadeira e ficou balançando as mãos sorrindo de boca aberta, interpretando se emocionar, olhando para Lúcia que repetiu exatamente as mesmas atitudes.
         Eu nunca tinha recebido um pedido como esses. Pouca coisa se sabia sobre mim, mas o fato de que eu não era muito dado a casamentos, era completamente perceptível.
         Sorri e disse que seria um prazer.
         Eu odiei tanto a minha resposta e aquele pedido, que meu desejo maior era quebrar a garrafa em minha própria cabeça.
         Lúcia abraçou a mim e Maya ao mesmo tempo com braços gigantes e eu não sei exatamente o que se sucedeu logo em seguida, mas certamente eu devo ter julgado tudo muito chato e por isso apaguei da minha memória.
         Lembro da despedida e de ter sentido tanta pena da Lúcia, que assim que ela me olhou sorrindo, se despedindo, não consegui sorrir de volta porque tinha uma certeza muito firme de que aquele sorriso se apagaria dali a alguns meses ou com um pouco de sorte, dali a alguns anos. E aquele sorriso não podia desaparecer já que era uma das poucas coisas realmente verdadeiras nesse mundo. Eu tinha convicção de que todas as pessoas casadas eram infelizes. E realmente aquele foi o último sorriso que eu testemunhei dela, minha última lembrança. Depois daquele dia eu nunca mais a veria.
         Mandei uma mensagem à Lúcia pedindo perdão por ter de viajar a trabalho no dia 2 de maio, data do seu casamento. Ela não sabia que naquela época, eu estava assim como Maya, desempregado. Nem eu, sabia porquê mentia. Lúcia deve ter ficado chateada, a foto de seu perfil sumira junto com a sua insistência em nossa amizade.
         Depois de tanto tempo lembrando e relembrando esse fato, finalmente assumo que toda a minha resistência, foi pela questão de que é difícil ser padrinho de um casamento, quando bem lá no fundo, se quer ser o noivo.  

14/12/2017

Saiba o que é Mitomania e confira a dica do filme: Um Contratempo

Título original: Contratiempo
Gênero: Drama / Romance Policial
Direção / Roteiro: Oriol Paulo
Lançamento: Jan / 2017
Elenco Principal: Mario Casas, Bárbara Lennie, Ana Wagener, José Coronado.



            Não é de hoje que o cinema espanhol vem crescendo em qualidade e “Um contratempo” é a prova disso.
         É um filme inteligente, cheio de suspense e reviravolta, que possui uma história intrigante, cheia de mistério com uma narrativa pautada por situações hipotéticas.
         O filme nos lembra que as atitudes que um pai e uma mãe tomam para fazer justiça por um filho, podem não ter limites, bem como as atitudes que um homem influente é capaz de tomar para salvar sua própria pele, seu nome, sua empresa e sua família.
         Mario Casas interpreta Adrian, um jovem empresário de sucesso, rico e que tem um caso extraconjugal com a fotógrafa Laura, interpretada pela atriz Bárbara Lennie.
         Voltando de um encontro, eles se acidentam e é então que toda a história acontece. É uma história que surpreende nos detalhes.
         A atriz Ana Wagener, que interpreta a advogada, é a peça chave para desvendar tudo o que realmente aconteceu no momento do acidente. É uma mulher firme, que desempenhou um papel muito forte e central no longa.


        O fato do personagem principal mentir descaradamente, me fez querer relacionar o personagem Adrian, com o transtorno da mentira patológica (mitomania).
         O personagem, não tem essa patologia, afinal, ele só mente para se livrar de uma condenação iminente, porque ele foi responsável pela ocorrência de um acidente e, depois dele, uma série de crimes com omissão de socorro e ocultação de cadáver, inclusive. E as mentiras inventadas por ele, foram para encobrir uma série de outras mentiras anteriores. E é importante ressaltar que nem todo mentiroso é um mitomaníaco.  
         A mitomania é o transtorno que faz com que a pessoa minta de forma compulsiva, é caracterizada por ideação fantasiosa de uma história ou de um personagem. Os sujeitos contam frequentemente histórias inverídicas com o objetivo de ganhar a auto-valorização.
         Normalmente são pessoas que se gabam por se dizerem ser ricas, terem autoridade, fama, entre outras coisas, mas quando são pegas mentindo, ficam até agressivas e como consequência, contam novas mentiras.
         Os mitomaníacos mentem por gostarem de ser o centro das atenções e por isso exageram no relato de suas histórias, inventando fatos que não aconteceram. Geralmente são indivíduos manipuladores, podendo também ser inseguros, mentindo justamente para sentirem-se mais valorizados e estimados.
         O mitomaníaco se vale de um discurso crível e plausível, motivado por questões internas, não constituindo em seus relatos, elementos utópicos e irreais. Um mitomaníaco jamais vai dizer que viu um lobisomem, o papai Noel, ou algo do tipo.
         A mitomania tem diferentes causas, quando não há um quadro de um transtorno maior como a bipolaridade, por exemplo, sua causa pode ser uma maneira do sujeito sentir-se mais seguro socialmente ou por não querer revelar como ele realmente é, com seus erros e falhas, com suas fraquezas e vulnerabilidades.
         Neste caso, o tratamento é feito exclusivamente com terapia. Onde o terapeuta investiga questões relativas à autoestima e eventos traumáticos na vida da pessoa. 



E então, você gostou de saber sobre mentira patológica (mitomania)? Ficou interessado(a) no filme “Um contratempo? Conhece algum mitomaníaco? Qual outro filme que você poderia relacionar com a mitomania? Conta pra MISS.

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