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25/03/2019

Código: IS 40.8

   

Fonte: Pensamento líquido


     Minuciosamente seus olhos passeiam por todas as figuras dos quadros. A exposição leva um nome curioso e não há informação alguma sobre a origem ou inspiração das obras. Nem se quer um breve relato sobre a representação das mesmas. Tratam-se de reproduções gráficas de um seleto grupo de sapientes designers que também são historiadores. No entanto, só o fato de serem designers está claro.
     Sua mente repete o título da exposição desde o primeiro momento em que lera. É um termo interessante, mas por não saber o significado da palavra, nada daquelas imagens lhe trazem à luz sobre seu real significado por mais que tente. E ainda que soubesse, jamais saberia interpretar o motivo de ser “Ópio” o título dado à exposição.
     De todas as únicas figuras que reconhecia até então, das dezenas que havia visto, era o livro, ainda que, todas as imagens estejam bastante adaptadas; quase distorcidas em versões bastante subjetivas dos autores. Na verdade, poderiam ser reconhecidas caso os visitantes da exposição e apreciadores das obras gráficas, soubessem o que havia sido a religião.
     O reconhecimento do objeto livro se deu por causa de uma exposição anterior intitulada “Antiguidades” onde pôde conhecer qual utilidade o objeto tivera no passado e que embora existindo no atual momento, não era usado.
     Em alguns instantes, encontrará algo semelhante à medalha que carregava em seu peito e se lembrará das palavras de um de seus progenitores no momento da solenidade: “Está em nossa estirpe há gerações!” Na verdade, jamais poderia imaginar que aquele tutor, era um de seus progenitores.
     Os progenitores são os responsáveis por trazerem novos indivíduos à existência, contudo, nunca podem estar em posse destes já que o direcionamento moral, educacional, profissional e pessoal de cada indivíduo, compete aos tutores que integram uma equipe multidisciplinar cuidadosamente escolhida, treinada e criteriosamente monitorada em suas ações e instruções, a qual é responsável pela formação e desenvolvimento de cada sujeito. A família fora uma Instituição extinta há séculos.
     Seguida do trabalho, a educação é a única instituição integrada e estratégica que de forma muito focada, se responsabiliza em estruturar qualitativamente o desenvolvimento de cada pessoa até que – segundo se acredita – toda a maturação esteja concluída.
     Nos Institutos de Formação Humana (IFH), estimula-se a habilidade específica de cada pessoa, segundo a tendência pessoal de cada um, ignorando valores de cooperação, interação, sociabilidade, mas focando na competitividade, lucratividade e produtividade. Assim, toda pessoa nascida, cresce direcionada a potencializar ao máximo suas habilidades com tutores dotados de capacidade e formação específica em desenvolvimento humano como um todo. Embora voltado à aplicabilidade da eficácia no rendimento laboral.
     Os tutores do IFH, apresentam direcionamentos por vídeos e algumas vezes presencialmente. A formação teórica e prática do sujeito pauta-se no racionalismo e na igualdade.
     Não há nomes. Toda pessoa é identificada pelo seu registro. Uma sequência de letras e números que, dados após a solenidade, ficam gravados em suas frontes, onde poucos conhecem o significado de cada uma das letras e algarismos que levam.
     V.M.H.N.3044.32.9134 estava agora na exposição de arte a qual foi conduzido para prestar a limpeza do local. Vez ou outra via algum quadro chegar antes da exposição ser lançada. Agora que finalmente podia misturar-se aos turistas do MAG (Museu de Arte Gráfica), apreciava sem maior interesse cada um dos quadros onde os organizadores expunham várias imagens de uma determinada categoria que era conhecida somente por eles. Os artistas do MAG, além de exímios ilustradores, são grandes historiadores. Competência esta que inclui algo que pouquíssimos conseguem fazer de forma crítica e compreensível: A leitura. Que se tornara uma atividade mecânica e formal.
     Estes artistas e somente eles, sabem a fundo do que se trata a exposição, uma vez que os elementos representados por todas aquelas figuras, também foram obrigatoriamente extintas há séculos.
     Bem como a leitura, todo tipo de atividade tornara-se prática e imediatista. Nenhum tipo de relacionamento afetivo é proibido, mas espontaneamente as pessoas não se tocam, não interagem e se comunicam apenas quando necessário. Qualquer tipo de vínculo afetivo é espontaneamente inexistente. As interações são programadas, automatizadas.
     V.M.H.N.3044.32.9134, faz parte do grupo de higienizadores de menor porte, a saber, os humanos selecionados para a limpeza de todo e qualquer ambiente. Como suas intrínsecas habilidades não se encaixavam em nenhuma área de notoriedade científica, sua utilidade foi aproveitada para a higienização de menor porte que aponta a subcategoria dos assuntos de higiene, assepsia e limpeza. Os higienizadores de maior porte, já se enquadram nos que possuem altos níveis de inteligência estratégica. Mesmo sendo recolhidos apenas materiais genéticos para a fecundação de seres éticos e perfeitos, às vezes, certas assepsias são consideradas necessárias.
      Todas as patologias físicas estão erradicadas, embora existam farmácias que possuem apenas medicamentos para trazer um estado de felicidade que, dependendo do valor pago, pode durar por dias, já que o topor, as crises existenciais, a melancolia, a agonia, a ansiedade, a depressão, a falta de esperanças dominam as mentes, tomam as massas e viver dopado é a única forma de sobrevivência.
     A identificação e diferenciação dos gêneros sexuais existentes, só ocorre quando é necessário trazer novas pessoas à vida e, a conclamação se dá meses antes da possível fecundação. Somente pessoas com características de bons progenitores são escolhidos; não há nenhum tipo de relação íntima, tudo acontece manualmente; desde o recolhimento do sêmen até a inserção deste no útero de outro progenitor detentor do útero. Mas não há nenhuma nomenclatura. Tudo é classificado como Vitae, qualquer organismo é chamado assim. A verbalização indiscriminada da diferenciação de todos os seres é proibida.
     V.M.H.N.3044.32.9134 é um Vitae nada curioso e nem um pouco questionador, embora aquela exposição causa-lhe ansiedade. Riu-se da criatividade dos ilustradores. Achou-os habilidosos e inventivos ao compor de suas próprias mentes imagens, sinais, siglas e símbolos próprios, segundo pensava. Nunca ouvira falar neles, embora, tudo o que poderia saber sobre, estava nos livros. Só que embora não extintos, eram obsoletos.
     Enfim, seus olhos já haviam contemplado todas as obras disponíveis. Comandos da direção do MAG antes mesmo que V.M.H.N.3044.32.9134 chegasse à exposição, já haviam lhe comunicado o destino das obras que estavam no estoque. Então, chegando ao local indicado, pôde identificar os quadros que lhe haviam falado e que deveriam ser descartados imediatamente segundo ordens recebidas, a comando dos próprios artistas.
     Cada quadro estava envolto por um papel branco fino e pouco transparente. De uma a uma as telas iam sendo removidas por V.M.H.N.3044.32.9134 para o incinerador. O quarto quadro já estava em suas mãos. Dá um espirro forte, seus olhos se fecham, sua cabeça se projeta para frente rapidamente e este movimento o desestabiliza, faz suas mãos enfraquecerem, suas pernas desequilibrarem e o quadro escorrega pela abertura inferior do papel que o cobria. O objeto cai no chão e permanece intacto virado com a imagem para a frente. Deixa o papel branco que está em suas mãos de lado e quando se volta agachado para levantar o quadro que caíra... Uma imagem bem diferente das demais chamou-lhe a atenção de forma súbita. A tela possuía riscos grosseiros, traços uniformes... Mas com um olhar mais apurado, seu semblante modificou-se de surpresa e encanto ao reconhecer algo familiar e, se não houvesse lembrado o conselho de seu tutor, teria sido alvo de uma série de investigações.
     Por sorte, quando estava para tocar a medalha em seu peito, congelou suas mãos no lugar ao ecoar em seus ouvidos a lembrança da voz que o aconselhou assim que deixou o IFH: “Está em nossa estirpe há gerações. Mas tenha cuidado, por favor! Não mostre isso a ninguém. Nunca!”
     Sabia que em sua medalha, havia informações que levavam a um grupo que sabe exatamente o que a mesma representa, no entanto, nunca teve interesse em identificar o que aquele símbolo de sua medalha – que julgava simples – significava.
     Como a maioria dos Vitaes, V.M.H.N.3044.32.9134 não tinha desejo de saber mais do que seus tutores do IFH disseram que ele deveria saber para um higienizador de menor porte.
     No entanto... Só agora, somente agora, um interesse espontâneo surgiu como uma explosão repentina. Quis saber quem era aquele homem seminu pendurado com uma espécie de galhos espinhosos enrolados em sua cabeça.
     O material em que seu corpo estava preso, era semelhante ao que V.M.H.N.3044.32.9134 carregava no peito. Duas estacas presas uma à outra. A estaca horizontal estava um pouco acima da estaca vertical. Não faz ideia do que é isto, não possui a menor noção do seu significado, embora, somente agora sua curiosidade tenha sido despertada.
     Então, com muito cuidado, retira a medalha de dentro de seu macacão e, virando-a com as mãos cerradas, passa os dedos nas inscrições que continham atrás das duas estacas. Seus olhos apertaram, e antes de procurar por informações sobre o objeto e uma espécie de vitae que parecia estar pregado nela, consegue ler os escritos na medalha:
     “Está consumado!”

15/02/2017

Filme: Quando te conheci (Equals) #crítica

Título original: Equals

Título no Brasil: Quando te conheci

Diretor: Drake Doremus

Gênero: Drama, ficção científica, romance

Música: Sacha Ring

Lançamento: 2016

Elenco Principal: Nicholas Hoult  - Silas

                              Kristen Stewart - Nia

                              Guy Pearce - Jonas

                              Jacki Weaver - Bess


Imagine um mundo
onde os SENTIMENTOS
são proibidos


Eu me apaixonei perdidamente por esse filme. Não só pelo personagem principal Silas (Nicholas Hoult), que além de lindo demonstra um jeito todo especial de revelar sua paixão por Nia (Kristen Stewart), mas pela forma delicada de como as cenas foram apresentadas e interpretadas por todo o elenco. Foi um tipo de filme que eu fiquei pensando: Uau! O cinema é uma arte maravilhosa! 


Ator Nicholas Hoult como Silas

Assim como é bem subjetivo a forma com que cada pessoa percebe e sente cada arte, seja uma música, um quadro, um poema, uma escultura... Cada um vai ter a sua própria percepção do filme, portanto, talvez alguém depois de ler esta crítica possa achar o filme muito ruim, mas o fato é que eu me identifiquei tanto com o filme que até suspeito que foi eu que escrevi o roteiro. Hahaha
A forma sutil com que Silas vai se interessando e se apaixonando por Nia, me fez suspirar de tão sublime. Ele forja situações para estar ao lado dela e até grava a sua voz para escutá-la quando está em casa sozinho.
Silas e Nia são jovens. Mas não tão jovens, embora as sensações, interesses e desejos que sentem um pelo outro são super novas para ambos, pois, nunca antes foram sentidas, apesar de Nia, já ter sentimentos bem antes de Silas, todavia os esconde de todos. Aliás, Filme perfeito para Kristen - a atriz de Crepúsculo - que não podia demonstrar emoções neste filme. Ela é perfeita para esse papel. Qualquer diretor do mundo teria pensado nela primeiro. Hehe.



Atriz Kristen Stewart como Nia (super expressiva)

Quando eles tocam um no outro pela primeira vez é tudo muito sensível e cortês. O envolvimento dos dois se dá de forma gradativa. Não como os romances atuais bem efusivos e avassaladores. Não há euforia e sim uma descoberta altamente poética, apesar de perigosa. E eu acredito que é isso que mais me encanta no filme, além é claro, do cunho reflexivo que me trouxe.
No filme, o efeito monocromático mesmo sendo compreensível e inerente à história é entediante, e a falta de ação é bastante enfadonha, mas há muita tensão na questão do romance ter de ser ocultado socialmente, pois isso é um fator super apreensivo e eu diria até desesperador.
É um amor singelo e apesar de toda minha empolgação, é um tipo de filme na medida certa para quem não gosta de romances muito melosos.






Quando assisto obras cinematográficas com essa temática utópica e futurista, ao mesmo tempo vou traçando um comparativo com a nossa realidade e o fato de no filme as emoções e sentimentos estarem quase erradicados, me chocou muito, porque me fez pensar em algo que a nossa sociedade, especialmente os mais jovens, têm cultivado, que é um discurso muito comum de: "Não se apega, não!" Um tipo de conselho para que as pessoas se tornem frias para não sofrerem com as possíveis consequências ruins de um rompimento amoroso.
Em Quando eu te conheci (Equals), as pessoas que sentem, são classificadas como doentes. A possibilidade de chorar com a morte de alguém, o fato de se apaixonar ou querer o toque de alguém, são os sintomas de uma doença em que a cura é almejada por boa parte da população.
Inclusive, há uma parte em que o personagem confessa à sua equipe de trabalho que está doente e seu chefe afirma que assim como já encontraram a cura para o câncer, irão encontrar cura para "isso" também.
Quando as pessoas passam a demonstrar sentimentos, é tido por alguns como vergonhoso, uma grave patologia, por tanto, as pessoas que sentem e tentam um contato mais direto com outros humanos, são denunciados ao Conselho de Segurança e Saúde e têm grandes chances de serem mortos.
Em Equals, é como se as emoções humanas fossem um fator super limitante das nossas competências. Como se afetasse a nossa capacidade cognitiva, intelectual e a eficiência do profissionalismo; algo ameaçador da produtividade e do bem estar. A vida é robótica, sem cor, sem peculiaridades, sem vida! Sem peculiaridades, porque inclusive o nome do filme traduzido significa iguais.






Portanto, traçando esse paralelo entre ficção e realidade, sabemos que, pequenas demonstrações de afeto, amor ao próximo, empatia, solidariedade, compaixão, gratidão, são valores bem raros. E quando há pessoas que demonstram boas doses de alguns desses valores, suas ações são recebidas com estranheza ou desconfiança.
Às vezes as pessoas sensíveis, são vistas como frágeis e vulneráveis. Por isso, algumas pessoas adquiriram resistência em demonstrar afetividade, e muitas vezes se tornaram ou forjam apatia porque não querem ser rotuladas dessa maneira.
Enfim, o filme encerra de uma forma emocionante e mais uma vez eu vi ali a nossa sociedade demonstrada de forma caricata em uma ficção científica que deveria ser uma obra fictícia apenas, porém, infelizmente denuncia sutilmente nossos relacionamentos empobrecidos e mal conservados.
Entretanto, o olhar diferenciado sobre o fim do longa rendeu-me um proveitoso aprendizado: Tudo o que já foi importante e que por algum motivo deixou de ser, se teve relevância, os bons momentos estarão retidos na memória e revivê-las de forma consciente, é imprescindível para dar um novo significado àquilo que já teve um valor na sua vida, pois, nem tudo precisa ser desfeito ou descartado. Embora, também exista a necessidade de se ponderar e refletir com minúcia a insistência no investimento de sentimentos, em algo onde não haja reciprocidade. Para entender melhor, você precisa assistir Equals.