07/06/2018

Série e Filme Dance Academy e os benefícios da Dança

“Eu sempre soube que em outra vida eu sabia voar...

E é por isso que nessa vida eu danço.” 

(Temporada:1 Episódio:1) 




      Por que gostamos tanto de ouvir e assistir histórias? Seja por meio de uma peça de teatro, filme, livro ou série? 

     Dance Academy aborda fatos comuns do cotidiano juvenil de forma leve e divertida.

     Pas de deux, arabesque, plié, cabriolé, passé, superação, pressão, expectativa, frustração, intensidade, competitividade... Tudo o que permeia o mundo de todas as pessoas que se dedicam ao ballé profundamente, está presente de forma bastante real.

      As 3 temporadas e 1 filme, resume a vida escolar de alunos da Academia Nacional de Dança durante e após o ensino médio. A evolução de todos os personagens tanto fisicamente como artisticamente, é bem interessante, por isso, crível!

     Destaco as narrações densas e poéticas realizadas na maioria dos episódios e no filme pela personagem Tara Webster; destaco a alternância no foco dos personagens para que todos tivessem a mesma visibilidade e também a questão de intercalar cenas de dança com outros contextos para que não ficasse cansativo.

     Enfim, um ponto muito interessante da série é quando ocorre uma situação muito triste e inesperada com um dos personagens e, a maneira como essa situação é apresentada, foi muito inteligente. Pois, se pôde ter noção de todo o sofrimento que um evento desse tipo causa na vida real, onde a gente fica buscando explicações para algo que nunca iremos conseguir compreender.

     Ou seja, a forma como isto se deu no episódio, trouxe um desconforto e um incômodo por causa da descontinuidade. E despertar essa emoção ao expectador, foi um efeito brilhante. Além é claro, do fato de toda a história tanto da série, quanto da continuação no filme, ser imprevisível, portanto, surpreendente!

     Resiliência humana é a capacidade de se refazer, voltar a ser inteiro novamente depois de ter estado completamente despedaçado. Dance Academy é uma história que fala da capacidade de se reinventar, de descobrir que existem possibilidades de ser feliz em situações para além daquela que você imaginava não poder viver sem.      

     Essa é a proposta de quem conta uma história. A proposta de conversar com o outro por intermédio da arte. Seja a arte da escrita ou da atuação. É por isso que amamos ouvir, ler e assistir histórias. Porque nos identificamos, nos emocionamos e aprendemos. 



“Aquela sensação de que eu poderia
 girar para sempre ou facilmente cair. 
E quando acordo, não sei se é sonho ou premonição.” 
(Temporada: 2 Episódio:1) 

     Movimentar o corpo a partir do ritmo de uma música tem sido uma prática para além da arte, do entretenimento e do profissionalismo. A dança têm se transformado em uma atividade alternativa e terapêutica que proporciona qualidade de vida.

     A endorfina é um hormônio liberado durante e depois de uma atividade física como a dança. A endorfina regula a emoção e a percepção da dor, por isso, é considerada um anestésico natural, pois, diminui o estresse e a ansiedade, aliviando as tensões, auxiliando no relaxamento proporcionando bem estar e prazer. 

     Produzida na hipófise, a endorfina é liberada para a corrente sanguínea com o GH e ACTH. O primeiro estimula o crescimento e o segundo estimula a produção de adrenalina e cortisol. 

     A Adrenalina por sua vez, dentre muitos outros benefícios, ativa o cérebro e o deixa mais vigilante, com reações mais rápidas e estimula a memória. Já o cortisol tem a função de auxiliar no controle do estresse, na redução de inflamações, e ainda contribui para o funcionamento do sistema imunológico e a manutenção dos níveis de açúcar no sangue, bem como a pressão arterial. 

     A dança pode ser praticada como uma atividade física regular, sem toda aquela pressão como é mostrada em Dance Academy, mas com a finalidade de superar a si mesmo e realizar uma atividade física que lhe dê prazer e que te faça sair do sedentarismo, proporcionando momentos de interação com o grupo com que se dança favorecendo o relacionamento interpessoal e intrapessoal, já que se dança com seu próprio corpo. A dança auxilia no exercício da memória, da expressividade, da criatividade, e é também uma atividade libertadora. 



 

“A mudança costuma ser gradual.

Pontos de mudança tão pequenos, 

que você nem percebe.

E aí, há outros eventos... 

Repentinos, monumentais, definitivos... 

Que mudam você para sempre.” 

(Temporada:3 Episódio:13)



Produtores: Samantha Strauss e Joanna Werner

Direção do filme: Jeffrey Walker

Gênero: Drama

País de Origem: Austrália

Ano da Série: De 2010 à 2013

Ano do Filme: 2017

Elenco Principal: Xenia Goodwin (Tara Webster), Alicia Banit (Katrina Karamakov “Kat”), Dena Kaplan (Abigail Armstrong), Jordan Rodrigues (Christian Reed), Thom Green (Samuel Lieberman “Sammy”), Tim Pocock (Ethan Karamakov), Isabel Durant (Grace Whitney), Thomas Lacey (Ben Tickle), Keiynan Lonsdale (Ollie Lloyd), Tara Morice (Sra. Raine).


31/05/2018

Critique menos os erros dos outros, perceba mais suas próprias falhas. Eu farei o mesmo!

    

     A palavra crítica significa julgar, avaliar, conhecer, analisar, examinar... O termo vem do grego kritike, "a arte de discernir". 

     Muito se fala sobre a importância da criticidade e a necessidade da formação de cidadãos críticos; que tenham a capacidade de pensar e refletir de forma racional.  

     Que estamos mais críticos, isso é fato! E é bom que estejamos de um certo modo, porém, as críticas na maioria das vezes não são a um dado argumento, sistema, ideologia, crença, dogma... As críticas são sempre direcionadas ao outro e quase sempre de forma muito cruel e desrespeitosa. As críticas são sempre às ações, falhas e opiniões do outro, mas muito raramente às ações, falhas e opiniões próprias. Quem vive avaliando o outro, se incomoda em ser avaliado, porque dificilmente se autoavalia. 

     A psicoterapia permite o autoconhecimento e a autoconsciência, já Sócrates, enfatizou: "Conheça a ti mesmo!"; Paulo de Tarso em sua primeira carta ao povo de Corinto reforça que cada um deve examinar a si mesmo e, a meditação é uma prática que reforça a compreensão e a percepção do indivíduo de suas próprias emoções, sentimentos e atitudes. 

     Este exercício de autocrítica (quando em proporções adequadas, porque se auto-torturar também não é saudável) é imprescindível, porque enquanto só critico o outro frequentemente, não me atento para meus próprios erros. E por não reconhecê-los, não os abomino. Por isso, não livro-me deles. E por não perceber minhas próprias falhas e tropeços, não melhoro, não cresço e não evoluo. É como se o outro tivesse continuamente a culpa pelos meus sofrimentos e pelo sofrimento do mundo, enquanto eu não faço qualquer ato imundo e/ou desagradável. O que seria eu, então? Um semideus? 

     Existe uma música bastante reflexiva da cantora Flaira Ferro que expressa o seguinte: "Eu quero me curar de mim" É uma música autobiográfica em que a compositora vai confessando defeitos inconfessáveis como ser hipócrita, mentirosa, invejosa, corrupta.... Até terminar a música se perguntando se um dia essa cura de si mesma há de existir. É bem possível que não exista nessa vida, porque como humanos que somos, iremos falhar. Porém uma coisa é certa, reparar as próprias mazelas já é um grande passo para ser um ser humano muito melhor. 

     Vou dar um exemplo bem pessoal a fim de combinar com o tipo de crítica que estou fazendo: Em dezembro, próximo ao natal, vi nas redes sociais, várias postagens de pessoas que visitaram orfanatos e distribuíram presentes e alimentos às crianças. Fiquei pensando que isso não adiantaria só no natal e já escrevi um textão que com boa dose de senso, não foi postado. O texto falava sobre a hipocrisia das pessoas em fazer boas ações só no fim de ano, já que as crianças brincam e precisam de ajuda em todos os meses do ano. Antes de dar meu click para a publicação, fiz uma autoavaliação e lembrei que eu mesma não tenho feito qualquer ato solidário nem no natal e nem mesmo em nenhuma outra época do ano. 

     Portanto, não sejamos hipócritas! Ou melhor, reconheçamos quando estivermos sendo hipócritas, ciumentos, egoístas, mentirosos, soberbos, imaturos... Sejamos conscientes e façamos uma autoanálise antes de criticar qualquer ato alheio. Que comece por mim! 

   É como disse John Lennon: "Se o homem buscasse conhecer a si mesmo primeiramente, metade dos problemas do mundo estariam resolvidos.



Ouça a música "Me curar de mim" da artista Flaira Ferro



09/04/2018

Oportunismo



13/03/2018

O Câncer e os Cuidados Paliativos - Psicóloga Silvana Aquino


            A Casa da Mulher Nilopolitana, centro de referência em atendimento à mulher vítima de violência doméstica, pertencente à Secretaria Municipal de Cidadania e Direitos Humanos em Nilópolis, RJ está realizando diversos eventos durante todo o mês de março em homenagem ao Dia Internacional da Mulher.
                O evento desta última terça-feira, dia 13, foi uma Palestra sobre Cuidados Paliativos com a Professora e Psicóloga Silvana Aquino que iniciou a palestra congratulando-se com a Equipe da Casa da Mulher Nilopolitana. “Em um mundo individualista, aqui é um espaço onde se trabalha de forma comunitária” disse.

Fotografia de Roberta Nobre


                  A psicóloga abriu o discurso sobre cuidados paliativos questionando aos presentes, sobre quem cuidava de si. Em seguida reforçou que é impossível cuidar do outro se não cuidar de si mesmo, pois, se dou tempo para o outro, tenho que reservar tempo para mim.
            Relembrou sobre as doenças com as quais precisamos conviver e que são de difícil tratamento ou não têm cura, como o Mal de Alzheimer, a Diabetes, o HIV, até que chegou ao câncer.
            A psicóloga exibiu parte da entrevista da atriz Márcia Cabrita no programa do Jô em que a atriz expôs suas angústias na época em que teve que enfrentar o câncer e que não foi fácil, pois, as pessoas pediam para que ela fosse forte e tivesse pensamentos positivos. Márcia afirmava não ter conseguido ser positiva logo no início da doença e o que a fez encontrar uma forma de aliviar a ansiedade, foi a abertura do blog em que escrevia sobre toda a dificuldade que passava.
            Silvana falou que o caso da atriz foi um caso de recidiva do câncer, pois, o câncer voltou a manifestar-se após ter sido controlado em um determinado momento. Silvana trouxe algo novo para mim que foi o fato de que antes de cinco ano de reaparecimento de um novo câncer, não se pode dizer que a pessoa foi curada, mas sim que a doença foi controlada, pois, ela pode voltar.
            De forma bastante didática, Aquino respondeu o que pode causar a doença:
                  – Substâncias Químicas, como a nicotina;
                  – Vírus, como HPV que pode causar o câncer de próstata ou de vulva;
        – Hormônios, pois a falta de um ou outro pode afetar o sistema imunológico;
                  – Mutações genéticas, fator familiar; e
                  – Estilo de vida, como sedentarismo e obesidade.

            Silvana diz que dos tratamentos mais comuns estão a radioterapia, a quimioterapia e a cirurgia, embora, o tipo de tratamento pode variar de pessoa para pessoa, ou seja, não há um tratamento único, pois, cada caso é um caso.
            Ao finalizar a parte sobre o câncer e dizer que a estimativa para as pessoas acometidas pela doença em 2018-2019 ser de ao menos 1.200 pessoas aproximadamente, explica sobre os cuidados paliativos.
            A psicóloga explica que quando as pessoas pensam em paliativo, elas pensam em remendo, algo feito de qualquer jeito. Mas que paliativo significa proteção, segurança.
            Ou seja, cuidados paliativos dizem respeito ao cuidado de pessoas acometidas por doenças que não serão modificadas pelo tratamento e medicamentos. Explica ainda que o cuidado paliativo não é só para o doente, mas para a sua família, pois, a mesma precisa conhecer e se informar sobre a patologia que acometeu o familiar cuidado por ele e, que é um tipo de cuidado mais humano, para dar suporte às pessoas que se ama, já que a dor dela não é só física, uma vez que a morte é iminente e que poucas pessoas conseguem lidar com ela ou dialogar sobre, ainda que seja algo natural, porque, não se pode fugir da realidade.
            Inicialmente os Cuidados Paliativos se referiam apenas ao tratamento do câncer, mas atualmente se refere a qualquer doença progressiva e que não tenha cura.  
            Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), "cuidados paliativos consistem na assistência promovida por uma equipe multidisciplinar, que objetiva a melhoria da qualidade de vida do paciente e seus familiares, diante de uma doença que ameace a vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, da identificação precoce, avaliação impecável e tratamento de dor e demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais".
            Silvana ressalta que tratar de um sofrimento que não de pode curar, é necessário para a dignidade da pessoa, mesmo não sendo algo fácil de conseguir, já que a saúde pública como um todo, tem estado bastante precária. Contudo, ela enfatiza que existe e que é possível reivindicar, já que somente 8% das pessoas no mundo têm cuidados paliativos.
     A psicóloga Silvana Aquino finaliza sua palestra ouvindo alguns questionamentos, experiências de vida e respondendo as dúvidas colocadas sempre de forma muito respeitosa e agradável, mesmo se tratando de assuntos extremamente delicados.



Fotografia de Roberta Nobre

05/03/2018

Cinco lições da telenovela Sou Luna - 1ª Temporada

       Sou Luna é uma telenovela voltada para o público adolescente, onde os personagens cantam, dançam, andam de patins, compõem músicas e se apaixonam com a mesma frequência que o elenco feminino troca as cores do esmalte das unhas. rs     

            O andamento da novela é um pouco arrastado (normal, como todas as novelas), alguns personagens são bastante caricatos, mas o que aprecio é a qualidade das músicas, das coreografias, a atuação, a realidade distinta dos adolescentes que convivo, cenário, figurino, diálogos bem próximos ao real, a trama romântica e as mensagens reforçadas de superação, autoestima e coragem.
              Assisti pela Netflix onde está disponível somente a 1ª temporada e as lições que a novela e seus personagens me passaram e que me fizeram refletir foram as seguintes:

1- Ser persistente / LUNA
            A personagem central da história, quando coloca algo na cabeça, ninguém tira. O que é bacana e crível, é que nem sempre ela consegue obter êxito naquilo que almeja, mas Luna não desiste, ainda que a Tamara, sua treinadora ou seu melhor amigo Simón, digam que é arriscado demais ou que não vai dar certo. Ela tenta inovar propondo novos passos às coreografias mesmo com pouco tempo de ensaio, arriscando acrobacias complexas demais a fim de superar-se e não importa o que a Âmbar faça para detê-la, ela nunca se abala.



2- Ser humilde, pedir ajuda quando necessário / RAMIRO
            O personagem Ramiro é o típico narciso (o cara que se acha). Sim! Ele dança bem, canta bem, é lindinho! Mas precisa ser mais humilde. Aliás, sabe-se que quando a pessoa apresenta complexo de superioridade, é porque no fundo, se sente inferior. Mas quando Ramiro começa reconhecer o talento das pessoas ao seu redor e a inclusive pedir auxílio para gravações de vídeos, ajuda com figurino, coreografia e composições de músicas, ele consegue de fato ter mais visibilidade e ser muito melhor. Quando Jobim canta: "É impossível ser feliz sozinho..." Por favor, acredite!



3- Confiar nas próprias possibilidades / JIM
            Se por um lado é preciso descer do palco, quando nos inferiorizamos também não é legal. Precisamos confiar em nossa capacidade, compreender nossas habilidades, ter consciência daquilo que fazemos bem e em que somos bons. Nem se sentir o melhor, nem se sentir o pior. Isso se chama equilíbrio! A todo momento, Jim reconhecia seu talento para uma montagem coreográfica e não se detinha para oferecer ajuda, nem se escondia quando tinha a oportunidade de mostrar os passos que havia criado.




4- Valorizar quem está ao seu lado / JIM e YAM
            É uma dupla com um tipo de amizade que quase não se vê mais. As meninas brigam, sim! Porém, encontram sempre motivos para se perdoarem e voltarem a se falar. Coisa que raramente um adulto faz. Às vezes, os conflitos entre elas ocorriam por questões muito simples e banais, então, a importância do diálogo para uma amizade tão forte, de cumplicidade e lealdade como essa, ficou evidente. O fato, é que elas sabiam que eram especiais uma para a outra e valorizavam isso. 




5- Fazer o que gosta mesmo estando inseguro / NINA
            Essa personagem foi a que eu mais me identifiquei. Principalmente pela sua habilidade na escrita, seus gostos peculiares, diferentes das pessoas de sua idade em relação aos livros e filmes. Também por seu medo e insegurança tanto para revelar sua verdadeira identidade, andar de patins, cantar e falar com o cara que gosta. Curtia muito os diálogos da Nina com sua mãe, as dicas que ela dava para a amiga Luna, as frases que postava como Felicity for Now e os conselhos que recebia do pai. Nina é a personagem que evoluiu ao longo da série e é essa maturidade que a sociedade espera dos jovens.      



– ...então eu estava pensando em abrir uma conta própria. Pra poder escrever o que eu quero e publicar as minhas próprias fotos. Você acha que é uma má idéia, né?
– Não! Como ia achar uma má idéia? Excelente! Seria perfeito! Faça isso! Nem pense! Só faça, Nina!
– E se ninguém me seguir?
– E o que importa? E daí se ninguém te seguir? Não! Não importam as curtidas, não importam os seguidores, o importante é você fazer o que realmente você quer e sente. Se quiser fazer... Você faz! 
(Dálogo de Nina com o pai - Capítulo 19, Temporada 1)

 
E então... Você assistiu ou assiste a série? Ansioso para terceira temporada? Qual o personagem que você mais curte? Não assistia, mas curtiu a postagem? Aprendeu algo? Conta pra MISS!

09/02/2018

Livro: Todos contra todos - O ódio nosso de cada dia / Leandro Karnal #resenha

“As crianças contemporâneas (especialmente as que têm mais de 50 anos como eu) batem o pé, fazem beicinho, mandam mensagem no WhatsApp e argumentam. Mas, como toda criança, não ouvimos ninguém. Ou melhor, ouvimos desde que o outro concorde comigo; então ele é sábio e equilibrado.” p.13




Título do Livro: Todos contra todos – O ódio nosso de cada dia
Autor: Leandro Karnal
Editora: LeYa
Ano: 2017
Páginas: 143
Assuntos: Aspectos sociais; discriminação; preconceito e antipatia.


          A prática da leitura além de promover o entretenimento, permite a identificação e organização dos sentimentos, pensamentos e ideias. Foi o que esse livro me proporcionou.
         Karnal utiliza uma linguagem de fácil interpretação, trazendo concepções bem-humoradas, reflexivas, conflitantes e, por ser historiador e professor, também é bastante didático.  
         O historiador discursa sobre nossas pequenas maldades diárias, fala de Freud e psicanálise, apresenta contextos ao longo da história, fala de política e diz que o Brasil é um país sem grandes catástrofes naturais como os terremotos, tsunamis, vulcões e que por muitos anos reforçamos nossa imagem de um povo amistoso; que historicamente ocultamos o termo “guerra” de nossa história, mas elas aconteceram e foram bastante sangrentas, e, por termos horror ao termo, os livros de história, o amenizam chamando vários massacres e conflitos de “revolta”.
         O fato de sermos um povo hospitaleiro e alegre, não quer dizer que não tenhamos uma face violenta a qual tentamos a todo custo, ocultar sem sucesso algum.
         Os dados sobre a realidade do trânsito são assustadores. De acordo com Karnal, segundo o Observatório Nacional, o trânsito no Brasil faz certa de 40 mil vítimas por ano (dados atualizados, mostram que esse número cresceu consideravelmente).

“Somos um país violento. Violentos ao dirigir, violentos nas ruas, violentos nos comentários e fofocas, violentos ao torcer por nosso time, violentos ao votar.” p.10

         Karnal ressalta que o ódio surge principalmente quando nos sentimos ameaçados, quando o sucesso do outro traz à tona nosso fracasso, ou quando não concordam conosco, ou seja, é mais fácil rotular o outro de machista, esquerdista, feminazi, burro ou outro rótulo qualquer, do que dialogar argumentando. Se alguém não concorda conosco, lhes fechamos a porta de qualquer diálogo. Sem contar que terceirizamos nossas responsabilidades e falhas. A culpa é sempre do outro, nunca nossa.
         Todo o contexto que Karnal oferece para fundamentar suas ideias é bastante elucidativo. Ele recheia o livro de preciosas referências literárias como Memórias de um sargento de milícias, Casa grande & Senzala, O tempo e o vento, 1984, Raízes do Brasil, entre muitos outros.
         O que compreendi ser a maior lição contida no livro é a importância de reconhecer o quanto podemos ser cruéis em relação a algo que não gostamos. E a importância também de reconhecer o sentimento de ódio e não negá-lo, pois, se o identificamos e o compreendemos, é muito mais fácil tratá-lo. Este reconhecimento é imprescindível, porque não há como tratar algo que se diz não ter.

“O ódio sempre existiu e flui por todos os lados. Não é fácil existir e acumular fracassos, dores, solidão, questões sexuais, desafetos e uma sensação de que a vida é injusta conosco. O mais fácil é a transposição para terceiros.” p.11

         O autor ressalta que o fato de alguém odiar algo, diz muito mais sobre quem odeia, do que quem é odiado.
         Alguns exemplos colocados no livro sobre a fonte de nosso ódio estar em nós e não no outro, foram as seguintes:
         – As mulheres passaram a ter direitos iguais e por isso estão ganhando espaço no mercado de trabalho, isso reduz as vagas para os homens, odeio o feminismo por isso;
         – Trabalho doze horas por dia, mas você acorda tarde, odeio essa sua atitude e digo que eu sou a virtude, pois, trabalho e você é preguiçoso, ou seja, culpo a sua preguiça, para não dizer que estou esgotado por excesso de trabalho;
         – Odeio as cotas raciais, porque os negros estão entrando nas universidades e ganhando espaço, quando na verdade, eu não consigo assumir uma vaga;
         – Odeio a Anitta porque ela faz um sucesso que deveria ser meu;  ­
       – Um homem fracassa no seu projeto amoroso. O que é mais fácil? Culpar o feminino ou a si? A resposta é fácil.
      

         
    
        De acordo com Karnal, a internet maximizou a expressão de ódio e intolerância, mas a internet não produziu os idiotas, estes puderam atacar de forma anônima e por isso, covarde, com uma energia muito grande, com certa “proteção” formando grupos de pessoas com pensamentos semelhantes.
          Discordo veemente de sua opinião de que o ideal cristão de amar aos inimigos seja uma utopia. Se ele não consegue e não vê propósito, é um problema dele. rs Não que seja algo fácil, mas é possível! Karnal faz afirmações segundo sua própria interpretação do que é ser cristão e falha. Bem típico de um não cristão que conhece a Cristo de forma técnica e inexpressiva.
         Enfim, o livro é bastante introspectivo. Considero leitura obrigatória! Para quem? Para todos! Pois, o ódio é um sentimento humano e por isso, acomete a todos nós e compreendê-lo, não é tarefa fácil, mas imprescindível para sermos melhores.

“Por isso que digo que para entender o Brasil, nós precisaríamos de mais de Freud que de Marx. Mais subjetivo e psicanalítico do que generalizado.” p.21

05/01/2018

(Em) Ponderando


          Um copo com água lhe foi entregue. Estava à sua frente, depositado na mesa. Segurava um pedaço de papel em uma das mãos, que servia para abarcar as lágrimas que caíam enquanto relatava diversas violências que sofreu, quando sofreu, onde sofreu e quem as fez sofrer.

          Com a escuta atenta, disfarçando a expressão tensa, eu teria que saber qual o tipo de violência. Se psicológica, sexual, moral, física ou patrimonial. Pelo relato prestado, foram todas. É nosso dever especificar o tipo de agressão e, como tenho “sorte”, em meu primeiro atendimento no estágio de psicologia em um local que atende mulheres vítimas de violência doméstica, tinha mesmo que ser alguém muito sofrido.

          Dentre muitas consequências da violência, estão pesadelos constantes durante a noite e uma reação fisiológica que constrange a vítima por se desencadear toda vez que seu cérebro percebe que ela está em perigo, mesmo que o agressor esteja a quilômetros de distância. Qualquer traço fisionômico semelhante, já provoca nela uma sensação nauseante.

          A vida que vivia, não era dela, estava em posse de seu companheiro que de forma bem hostil, a utilizou como quis, determinando ao seu modo como ela deveria comportar-se e principalmente, onde ela não deveria ir. Como se fosse possível alguém apreender e enclausurar a volição alheia.

         Olhando para o papel em suas mãos, percebo que ele se desfaz a cada palavra por ela proferida. Ela o esfrega, o reduz em pequenos pedaços, o esfarela...

          Olho para aquela cena enquanto escuto várias outras situações constrangedoras a que foi submetida, percebendo que ela faz ao papel, o que a ela foi feito.

          "Eu posso beber água?" – perguntou.

          “Você não precisa me pedir permissão para beber um copo de água que é seu” – respondi.

          Mais lágrimas caíram de seu rosto ao se tocar sobre o peso de submissão e nulidade que sua vida havia se tornado. 

          Corri os olhos sobre a mesa à procura de um objeto. Pego um peso de papel com uma bela flor no topo e digo: “Se eu o coloco aqui no centro desta mesa e saímos da sala, ele ainda estará aqui quando retornarmos. Ele não tem vida, nem vontade própria, não pode se locomover sem que eu ou qualquer outra pessoa o tire daqui.”

          Novas lágrimas, para um drama antigo...

          Novos embargos...

          Novas situações relatadas...

          Novas intervenções realizadas e...

          Depois de tudo, um novo olhar! 

          Uma pausa longa no choro e nos tremores de suas mãos.

          Para depois de vários instantes, um sorriso invadir-lhe a face, compreensão e empatia encherem os semblantes e ambas as expressões se tornarem leves.

          E como um objeto que, ao cair no chão devido à gravidade, provoca um ruído estrondoso, sua consciência se refaz de forma súbita e o turbilhão de expectativas que se deu naquele espaço foi ensurdecedor.

          Então, terminado o acolhimento, ouvi várias promessas de retorno, recebo um sorriso, um abraço e um agradecimento. Mas fui eu quem agradeceu mesmo de forma silenciosa, por testemunhar algo poderoso. Pois, pela força que seus olhos expressavam, eu imaginava que mais uma fortaleza se levantava e as consequências de suas ações ao erguer-se, poderiam ser bem mais avassaladoras. Porque quando alguém quebrado busca energia para se restabelecer, é quase impossível que forças externas, a paralisem novamente.

          E logo depois de terminado o atendimento, ponderei e percebi que descobri na prática o que o significado de empoderar elucida. Que é encarregar, confiar a alguém, dar poder, atribuir a alguém ou a si mesmo... Ou seja, não permitir que alguém anule sua liberdade de tomar decisões sobre sua própria vida.

          A não concessão de qualquer tipo de violência é algo muito novo para uma mulher e fisicamente ela já estava livre de toda opressão, mas cada agressão ainda a aprisionavam em dores violentas.

          Há muitos anos atrás, meu sonho era lidar com esse tipo de situação e eu jamais imaginei que pudesse ser tão difícil, tanto o durante, como o depois do atendimento.

          Pois agora, entendo que não sei exatamente se estava certa quando pude olhar para ela há alguns meses atrás e julgar ter encontrado nela força para que ela mesma comande sua própria vida e tome suas próprias decisões. Mas não posso dizer também que eu estava errada, porque talvez tenha partido dela mesma, a decisão de não mais me procurar.