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17/04/2019

Série Tidelands, Temporada 1 - O processo de Categorização Social


Título: Tidelands
Direção: Toa Frase
Autores: Stephen M. Irwin e Leigh McGrath
Temporada 1
Ano: 2018
Gênero: Drama, Aventura
Elenco Principal: Charlotte Best (Cal McTerr),

                           Elsa Pataky (Adrielle Cuthbert),

                           Aaron Jakubenko (Augie McTerr),

                           Marco Pigossi (Dylan).


     Produzida na Austrália, a série conta a história de um grupo chamado Tidelands que possui alguns poderes especiais por serem filhos de sereias. Na série, as sereias são criaturas que com o seu canto atraem os pescadores para o mar e, após terem relações com eles, engravidam, os matam e abandonam seus filhos nas rochas. Neste seriado, as sereias se apresentam como monstros do mar e não têm uma aparência agradável como em outras histórias do gênero. 
     A série se inicia com Cal McTerr (Charlotte Best) que após sair da prisão, tenta retomar sua vida na cidade onde morava e, ao descobrir que possui poderes especiais como os Tidelands que são metade humano e metade sereia, vai até o grupo a fim de descobrir mais sobre si mesma. 
     Os Tidelands vivem em uma comunidade isolada da cidade e se sustenta fazendo negócios com os pescadores locais, que inclui o comércio de drogas. A líder Adrielle (Elsa Pataky) está disposta a fazer de tudo para proteger sua tribo, no entanto, tem interesses pessoais que esconde de todo o grupo. 

Elsa Pataky como Adrielle Cuthbert, líder dos Tidelands


     É uma série interessante, tem uma história bem aventureira, intrigante, mas há uns excessos tanto em relação à violência, quanto ao cunho sexual, que ao meu ver, são apelativos (todo mundo pega todo mundo), mas talvez faça parte da trama, já que os Tidelands são criaturas sensuais, poderosas e perigosas. 
     O ator brasileiro Marco Pigossi, tem um papel de destaque na série, ele interpreta o braço direito de Adriel. 

Os atores Marco Pigossi (Dylan) e Charlotte Best (Cal McTeer)

     O que possibilita a discussão da Categorização Social através da temática da série, é o conflito enfrentado pela protagonista que teve a missão de descobrir quem ela era, de onde vinha e qual sua verdadeira história de vida. 
     A partir do momento que Cal detecta que possui habilidades sobrenaturais e identifica-se com os Tidelands, diferencia-se dos demais seres humanos. Dessa maneira, é pertinente comentar sobre a Categorização Social. 
     A categorização é um processo que facilita e simplifica a organização dos objetos, pessoas, ideias, acontecimentos, instituições etc, agregando-os em grupos por suas características comuns. Podemos conceituar a categorização social como uma forma sistemática de organização que permite comparar os indivíduos identificando-os e agregando-os. 
     Segundo estudiosos, a categorização social possibilita ao indivíduo saber sua posição na sociedade, por meio do grupo ao qual pertence. Assim, o indivíduo adquire consciência de sua identidade social e esse conhecimento traz significados emocionais. Essa percepção das semelhanças e diferenças pessoais com um determinado grupo, recebem os nomes de assimilação intracategorial, que se refere a minimização das diferenças e a diferenciação intracategorias que é a maximização das diferenças. 
     A categorização social representa, portanto, uma atividade cognitiva que envolve o agrupamento (formação de categorias), o auto posicionamento em uma ou mais categorias (inclusão), a diferenciação entre categorias (contraste), a escolha de um foco central de cada categoria (protótipo) e a determinação das distâncias existentes entre os vários objetos agrupados e o seu protótipo (grau de tipicidade). 
     Como apontou Taifel, grande estudioso desta temática, o indivíduo tende a afiliar-se em um grupo, quando este é capaz de lhe fornecer alguns aspectos satisfatórios para a sua identidade. 
     E a partir desta afirmação, o autor propôs que a categorização social tem 3 componentes psicológicos: Cognitivo, Avaliativo e Emocional. O primeiro é a compreensão do indivíduo de sua pertença a uma categoria social, a segunda é a avaliação que este faz numa dimensão de valor e a terceira se refere as consequências emocionais dos componentes anteriores no indivíduo. Estes três componentes formaram a base da identidade social do indivíduo. 
     Percebe-se estes conflitos na personagem Cal, quando esta descobre não ser um ser humano comum após identificar-se com o grupo Tidelands; assimilar as similaridades existentes entre eles e a diferenciação dos demais humanos, além dos conflitos emocionais decorrentes desta descoberta.


















REFERÊNCIAS:


1- Categorização Social - FamaPsico. Acesso em Abril/2019


2- O Processo de Categorização Social [...] por Mirlene Maria Siqueira e outros autores, 1994. Acesso em Abril/2019

09/08/2018

João e Maria por Neil Gaiman e o valor da parceria na relação familiar


Título: João e Maria
Versão: Neil Gaiman
Ilustração: Lorenzo Mattotti
Editora: Intrínseca
Reimpressão: Abril/2018
Páginas: 55
SINOPSE: Neil Gaiman e Lorenzo Mattotti lembram o horror e o fascínio que sentiram quando leram João e Maria dos irmãos Grimm. Agora, escritor e ilustrador se unem nesta brilhante releitura de um dos maiores clássicos de todos os tempos. Seja forte, corajoso e prepare-se: Gaiman e Mattotti vão levar você para um passeio nas profundezas da floresta.

     A versão de Neil Gaiman é a mais próxima da versão real, sem aquelas adaptações para tornar a história mais leve e menos chocante ao público infantil, tendo o autor pesquisado outras publicações.
    Ao final da história de Hasel e Gretel que no Brasil é João e Maria, é apresentado resumidamente o contexto histórico em que o livro foi publicado, suas versões posteriores à primeira publicação de 1812 e qual período social os irmãos Grimm poderiam ter se baseado para escrevê-lo.
     A leitura é agradável e rápida não só pela pouca quantidade de páginas, mas porque causa curiosidade sobre seu desfecho, uma vez que há diversas versões.
     A adaptação em questão, é muito bem escrita, poética, possui ilustrações feitas por Lorenzo Mattotti que inclusive fizeram parte de uma exposição e foi por meio deste evento que o convite para o livro surgiu. A capa é dura e a diagramação do livro também está bastante especial, digna de coleção.

     Os pais de João e Maria eram camponeses, viviam confortavelmente antes da guerra, pois, quando esta chegou, ocorreu a fome e é por esse motivo que os irmãos são abandonados na floresta pelo pai, à mando da própria mãe.
     Encontrando a casa de uma velha bem idosa, João e Maria que estavam famintos, saboreiam as paredes da casa da velha que é toda feita de doces. Os irmãos são recepcionados com simpatia pela velha que acredita que finalmente encontrou carne. Ela prende João em uma jaula a fim de degustá-lo, mas como não enxerga bem, é engabelada por Maria que mostra um osso toda vez que tenta averiguar se João engordou para poder assá-lo.
     É um conto para adultos, o final é bastante otimista e é exatamente a partir do desfecho da história, que pode-se pautar a análise sobre a parceria no contexto familiar.
"O dia minguou e veio o crepúsculo, as sombras de esgueirando, saindo de debaixo de cada árvore, formando poças cada vez maiores, até cobrir o mundo inteiro em uma única e imensa sombra." p.17
     Relação familiar é aquela em que indivíduos moram em uma mesma casa, têm vínculos sanguíneos ou não, dividem interesses comuns, se comunicam e mantém um vínculo afetivo independente do papel que se exerça seja pai, mãe, filho ou filha, marido, esposa, irmão ou irmã, avô, neta etc.
     Já a palavra parceria relaciona-se à cooperação, interação, companhia, é quando duas ou mais pessoas criam juntas estratégias e agem para realizar um objetivo em comum.
     Os irmãos João e Maria tiveram diversos momentos desoladores. Passaram pelo período da guerra, da fome, o abandono dos pais, o terror de terem sofrido na floresta sozinhos, depois todo o pavor e sofrimento nas mãos da velha.
     Não há absolutamente uma única família, seja de qual classe social for, que não vivencie conflitos e problemas. No entanto, a chave para superá-los é justamente buscar o convívio e a comunicação saudável e não isolar-se frente aos mesmos.
     Os momentos de conflito levam à fragilidade física e psicológica. É bastante difícil, nessas horas, criar estratégias, manter a sanidade e o foco necessário.
     Assim que ouviu o plano de sua mãe para abandoná-los na floresta, João buscou meios de retornar para casa e inicialmente, os planos foram bem sucedidos até que eles não conseguiram mais retornar e ficaram sozinhos na floresta, vulneráveis a todo tipo de perigo e, como se o abandono não fosse bastante traumático, os irmãos viraram prisioneiros de uma velha antropofágica.
     O curioso é que foi lá na casa da velha que eles conseguiram, após derrotá-la, bens materiais para retomarem suas vida no local onde cresceram. É a lição de que os problemas e obstáculos nos dão oportunidades de crescimento e mudança.
     Mas a grande lição do conto, é que ambos estiveram juntos até o final, não culpabilizaram um ao outro e ainda sim, depois de tudo o que vivenciaram, foram capazes de perdoar o pai.
     Sendo assim, o ideal é que se busque um bom relacionamento de afinidade e companheirismo na família, porque isso se constitui em um fator decisivo para superar os momentos difíceis.

Talvez você não teve uma velha canibal para enfrentar, nem tenha ficado perdido na floresta ao ser abandonado por seus pais, talvez não tenha passado fome após enfrentar a guerra, mas é possível que já pôde contar com alguém de sua família em momentos de grandes dificuldades, seja lá quais tenham sido. Qual o maior desafio que você e sua família tiveram que enfrentar juntos? 

CONTA PRA MISS

07/06/2018

Série e Filme Dance Academy e os benefícios da Dança

“Eu sempre soube que em outra vida eu sabia voar...

E é por isso que nessa vida eu danço.” 

(Temporada:1 Episódio:1) 




      Por que gostamos tanto de ouvir e assistir histórias? Seja por meio de uma peça de teatro, filme, livro ou série? 

     Dance Academy aborda fatos comuns do cotidiano juvenil de forma leve e divertida.

     Pas de deux, arabesque, plié, cabriolé, passé, superação, pressão, expectativa, frustração, intensidade, competitividade... Tudo o que permeia o mundo de todas as pessoas que se dedicam ao ballé profundamente, está presente de forma bastante real.

      As 3 temporadas e 1 filme, resume a vida escolar de alunos da Academia Nacional de Dança durante e após o ensino médio. A evolução de todos os personagens tanto fisicamente como artisticamente, é bem interessante, por isso, crível!

     Destaco as narrações densas e poéticas realizadas na maioria dos episódios e no filme pela personagem Tara Webster; destaco a alternância no foco dos personagens para que todos tivessem a mesma visibilidade e também a questão de intercalar cenas de dança com outros contextos para que não ficasse cansativo.

     Enfim, um ponto muito interessante da série é quando ocorre uma situação muito triste e inesperada com um dos personagens e, a maneira como essa situação é apresentada, foi muito inteligente. Pois, se pôde ter noção de todo o sofrimento que um evento desse tipo causa na vida real, onde a gente fica buscando explicações para algo que nunca iremos conseguir compreender.

     Ou seja, a forma como isto se deu no episódio, trouxe um desconforto e um incômodo por causa da descontinuidade. E despertar essa emoção ao expectador, foi um efeito brilhante. Além é claro, do fato de toda a história tanto da série, quanto da continuação no filme, ser imprevisível, portanto, surpreendente!

     Resiliência humana é a capacidade de se refazer, voltar a ser inteiro novamente depois de ter estado completamente despedaçado. Dance Academy é uma história que fala da capacidade de se reinventar, de descobrir que existem possibilidades de ser feliz em situações para além daquela que você imaginava não poder viver sem.      

     Essa é a proposta de quem conta uma história. A proposta de conversar com o outro por intermédio da arte. Seja a arte da escrita ou da atuação. É por isso que amamos ouvir, ler e assistir histórias. Porque nos identificamos, nos emocionamos e aprendemos. 



“Aquela sensação de que eu poderia
 girar para sempre ou facilmente cair. 
E quando acordo, não sei se é sonho ou premonição.” 
(Temporada: 2 Episódio:1) 

     Movimentar o corpo a partir do ritmo de uma música tem sido uma prática para além da arte, do entretenimento e do profissionalismo. A dança têm se transformado em uma atividade alternativa e terapêutica que proporciona qualidade de vida.

     A endorfina é um hormônio liberado durante e depois de uma atividade física como a dança. A endorfina regula a emoção e a percepção da dor, por isso, é considerada um anestésico natural, pois, diminui o estresse e a ansiedade, aliviando as tensões, auxiliando no relaxamento proporcionando bem estar e prazer. 

     Produzida na hipófise, a endorfina é liberada para a corrente sanguínea com o GH e ACTH. O primeiro estimula o crescimento e o segundo estimula a produção de adrenalina e cortisol. 

     A Adrenalina por sua vez, dentre muitos outros benefícios, ativa o cérebro e o deixa mais vigilante, com reações mais rápidas e estimula a memória. Já o cortisol tem a função de auxiliar no controle do estresse, na redução de inflamações, e ainda contribui para o funcionamento do sistema imunológico e a manutenção dos níveis de açúcar no sangue, bem como a pressão arterial. 

     A dança pode ser praticada como uma atividade física regular, sem toda aquela pressão como é mostrada em Dance Academy, mas com a finalidade de superar a si mesmo e realizar uma atividade física que lhe dê prazer e que te faça sair do sedentarismo, proporcionando momentos de interação com o grupo com que se dança favorecendo o relacionamento interpessoal e intrapessoal, já que se dança com seu próprio corpo. A dança auxilia no exercício da memória, da expressividade, da criatividade, e é também uma atividade libertadora. 



 

“A mudança costuma ser gradual.

Pontos de mudança tão pequenos, 

que você nem percebe.

E aí, há outros eventos... 

Repentinos, monumentais, definitivos... 

Que mudam você para sempre.” 

(Temporada:3 Episódio:13)



Produtores: Samantha Strauss e Joanna Werner

Direção do filme: Jeffrey Walker

Gênero: Drama

País de Origem: Austrália

Ano da Série: De 2010 à 2013

Ano do Filme: 2017

Elenco Principal: Xenia Goodwin (Tara Webster), Alicia Banit (Katrina Karamakov “Kat”), Dena Kaplan (Abigail Armstrong), Jordan Rodrigues (Christian Reed), Thom Green (Samuel Lieberman “Sammy”), Tim Pocock (Ethan Karamakov), Isabel Durant (Grace Whitney), Thomas Lacey (Ben Tickle), Keiynan Lonsdale (Ollie Lloyd), Tara Morice (Sra. Raine).


05/01/2018

(Em) Ponderando


          Um copo com água lhe foi entregue. Estava à sua frente, depositado na mesa. Segurava um pedaço de papel em uma das mãos, que servia para abarcar as lágrimas que caíam enquanto relatava diversas violências que sofreu, quando sofreu, onde sofreu e quem as fez sofrer.

          Com a escuta atenta, disfarçando a expressão tensa, eu teria que saber qual o tipo de violência. Se psicológica, sexual, moral, física ou patrimonial. Pelo relato prestado, foram todas. É nosso dever especificar o tipo de agressão e, como tenho “sorte”, em meu primeiro atendimento no estágio de psicologia em um local que atende mulheres vítimas de violência doméstica, tinha mesmo que ser alguém muito sofrido.

          Dentre muitas consequências da violência, estão pesadelos constantes durante a noite e uma reação fisiológica que constrange a vítima por se desencadear toda vez que seu cérebro percebe que ela está em perigo, mesmo que o agressor esteja a quilômetros de distância. Qualquer traço fisionômico semelhante, já provoca nela uma sensação nauseante.

          A vida que vivia, não era dela, estava em posse de seu companheiro que de forma bem hostil, a utilizou como quis, determinando ao seu modo como ela deveria comportar-se e principalmente, onde ela não deveria ir. Como se fosse possível alguém apreender e enclausurar a volição alheia.

         Olhando para o papel em suas mãos, percebo que ele se desfaz a cada palavra por ela proferida. Ela o esfrega, o reduz em pequenos pedaços, o esfarela...

          Olho para aquela cena enquanto escuto várias outras situações constrangedoras a que foi submetida, percebendo que ela faz ao papel, o que a ela foi feito.

          "Eu posso beber água?" – perguntou.

          “Você não precisa me pedir permissão para beber um copo de água que é seu” – respondi.

          Mais lágrimas caíram de seu rosto ao se tocar sobre o peso de submissão e nulidade que sua vida havia se tornado. 

          Corri os olhos sobre a mesa à procura de um objeto. Pego um peso de papel com uma bela flor no topo e digo: “Se eu o coloco aqui no centro desta mesa e saímos da sala, ele ainda estará aqui quando retornarmos. Ele não tem vida, nem vontade própria, não pode se locomover sem que eu ou qualquer outra pessoa o tire daqui.”

          Novas lágrimas, para um drama antigo...

          Novos embargos...

          Novas situações relatadas...

          Novas intervenções realizadas e...

          Depois de tudo, um novo olhar! 

          Uma pausa longa no choro e nos tremores de suas mãos.

          Para depois de vários instantes, um sorriso invadir-lhe a face, compreensão e empatia encherem os semblantes e ambas as expressões se tornarem leves.

          E como um objeto que, ao cair no chão devido à gravidade, provoca um ruído estrondoso, sua consciência se refaz de forma súbita e o turbilhão de expectativas que se deu naquele espaço foi ensurdecedor.

          Então, terminado o acolhimento, ouvi várias promessas de retorno, recebo um sorriso, um abraço e um agradecimento. Mas fui eu quem agradeceu mesmo de forma silenciosa, por testemunhar algo poderoso. Pois, pela força que seus olhos expressavam, eu imaginava que mais uma fortaleza se levantava e as consequências de suas ações ao erguer-se, poderiam ser bem mais avassaladoras. Porque quando alguém quebrado busca energia para se restabelecer, é quase impossível que forças externas, a paralisem novamente.

          E logo depois de terminado o atendimento, ponderei e percebi que descobri na prática o que o significado de empoderar elucida. Que é encarregar, confiar a alguém, dar poder, atribuir a alguém ou a si mesmo... Ou seja, não permitir que alguém anule sua liberdade de tomar decisões sobre sua própria vida.

          A não concessão de qualquer tipo de violência é algo muito novo para uma mulher e fisicamente ela já estava livre de toda opressão, mas cada agressão ainda a aprisionavam em dores violentas.

          Há muitos anos atrás, meu sonho era lidar com esse tipo de situação e eu jamais imaginei que pudesse ser tão difícil, tanto o durante, como o depois do atendimento.

          Pois agora, entendo que não sei exatamente se estava certa quando pude olhar para ela há alguns meses atrás e julgar ter encontrado nela força para que ela mesma comande sua própria vida e tome suas próprias decisões. Mas não posso dizer também que eu estava errada, porque talvez tenha partido dela mesma, a decisão de não mais me procurar.

21/12/2017

Bloqueio

        
Foto meramente Ilustrativa. Fonte: Freepik

             
         Voltava do treino quando recebi a mensagem. Achei tão apelativa... Na época, achava Lúcia a pessoa mais estranha do mundo. Por dentro principalmente. Irritava-me o seu jeito tão sentimental.
         Olhei sua fotografia de perfil e fixando os olhos em sua cicatriz no pescoço, pensei que ela poderia ter tirado de um ângulo melhor. Lembrei-me do acidente e de tê-la ajudado no momento em que ela mesma classificou como o pior de sua vida.
         Depois deste fato, ela passou a chamar-me de anjo. Eu pensava que era por incapacidade dela em pensar em um apelido mais depreciativo. Era a única pessoa que me via dessa forma, apesar de eu jamais permitir que alguém me conhecesse a fundo.
         Se ela soubesse que eu era o oposto do anjo que ela imaginava que eu fosse, iria ser difícil tê-la por perto e, eu não podia me dar ao luxo... Os poucos contatos que eu conservava, eram reservas para quando eu precisasse de alguns favores.
         Enfim... Lúcia, Maya e eu, havíamos nos reunido no mesmo bar que tínhamos frequentado há muitos anos, na época em que trabalhávamos juntos.
         Lúcia, como eu pensava, sempre insuportavelmente sensível, repetia todo o tempo o quanto era bom estarmos ali e o quanto aquele momento era raro.
         Maya contava que havia sido demitida da empresa em que trabalhava como arquivista.
         – É melhor ter paz do que ter dinheiro – falou Lúcia tentando confortar Maya no intuito de fazê-la sentir-se melhor por estar longe do estresse que era seu trabalho, ainda que tivesse problemas financeiros.
         – Você não tem paz se o dinheiro lhe falta – balbuciei mais para mim mesmo, confrontando o consolo piegas de Lúcia que eu sempre achava muito chato. Elas ouviram. Não responderam. Concordaram comigo, só não admitiram.
         Alguns longos segundos de silêncio foram quebrados por Maya que continuou relatando as perdas de sua vida e, dessa vez, falava do término de um relacionamento. Eu apenas balançava a cabeça bebendo a cerveja, fingindo ouvir. Nada disse.
         Lucia que despejou mais uma pérola:
         – Isso era um relacionamento abusivo.
         – Não exagera! – respondeu Maya e em seguida, para se livrar dos conselhos de Lúcia, perguntou sobre minha vida amorosa.
         – Igual como sempre – respondi.
         – Como igual?
         – Inexistente! Minha vida sexual está bem ativa, obrigado! – riram.
         Lucia olhou ao redor e como se julgasse mais feliz do que eu, Maya e o restante das pessoas do local, quase subindo na mesa, falou mais alto que a música que tocava:
         – Já eu, me caso em maio.
         – Com o advogado? – tentando demonstrar desinteresse para que ela aprendesse que aquilo não era uma notícia que mudaria nossas vidas, perguntei olhando por cima dos ombros no intuito de pedir ao garçom uma porção de fritas. Já Maya, simulava um ataque do coração.
         Dez minutos depois de uma história enfadonha e clichê que ela contava como se fosse um romance digno de um Oscar, ela deu um embrulho para mim e outro para Maya, dizendo que foi por isso que mandou mensagem marcando o encontro com nós dois àquele dia.
         Abrimos. Era uma garrafa de vinho para cada. Em um rótulo personalizado, meu nome na garrafa entregue a mim e o nome da Maya na dela, seguido de um pedido para sermos seus padrinhos de casamento.
         Bom, se antes Maya estava simulando um ataque do coração, depois desse momento ela parecia agonizar. Deu um grito agudo, pulou da cadeira e ficou balançando as mãos sorrindo de boca aberta, interpretando se emocionar, olhando para Lúcia que repetiu exatamente as mesmas atitudes.
         Eu nunca tinha recebido um pedido como esses. Pouca coisa se sabia sobre mim, mas o fato de que eu não era muito dado a casamentos, era completamente perceptível.
         Sorri e disse que seria um prazer.
         Eu odiei tanto a minha resposta e aquele pedido, que meu desejo maior era quebrar a garrafa em minha própria cabeça.
         Lúcia abraçou a mim e Maya ao mesmo tempo com braços gigantes e eu não sei exatamente o que se sucedeu logo em seguida, mas certamente eu devo ter julgado tudo muito chato e por isso apaguei da minha memória.
         Lembro da despedida e de ter sentido tanta pena da Lúcia, que assim que ela me olhou sorrindo, se despedindo, não consegui sorrir de volta porque tinha uma certeza muito firme de que aquele sorriso se apagaria dali a alguns meses ou com um pouco de sorte, dali a alguns anos. E aquele sorriso não podia desaparecer já que era uma das poucas coisas realmente verdadeiras nesse mundo. Eu tinha convicção de que todas as pessoas casadas eram infelizes. E realmente aquele foi o último sorriso que eu testemunhei dela, minha última lembrança. Depois daquele dia eu nunca mais a veria.
         Mandei uma mensagem à Lúcia pedindo perdão por ter de viajar a trabalho no dia 2 de maio, data do seu casamento. Ela não sabia que naquela época, eu estava assim como Maya, desempregado. Nem eu, sabia porquê mentia. Lúcia deve ter ficado chateada, a foto de seu perfil sumira junto com a sua insistência em nossa amizade.
         Depois de tanto tempo lembrando e relembrando esse fato, finalmente assumo que toda a minha resistência, foi pela questão de que é difícil ser padrinho de um casamento, quando bem lá no fundo, se quer ser o noivo.  

14/12/2017

Saiba o que é Mitomania e confira a dica do filme: Um Contratempo

Título original: Contratiempo

Gênero: Drama / Romance Policial

Direção / Roteiro: Oriol Paulo

Lançamento: Jan / 2017

Elenco Principal: Mario Casas, Bárbara Lennie, Ana Wagener, José Coronado.






     “Um contratempo” é um filme espanhol super inteligente, de suspense e reviravoltas, que possui uma história intrigante, cheia de mistério com uma narrativa pautada por situações hipotéticas.

     O filme nos lembra que as atitudes que um pai e uma mãe tomam para fazer justiça por um filho, podem não ter limites, bem como as atitudes que um homem influente é capaz de tomar para salvar sua própria pele, seu nome, sua empresa e sua família.

     Mario Casas interpreta Adrian, um jovem empresário de sucesso, rico e que tem um caso extraconjugal com a fotógrafa Laura, interpretada pela atriz Bárbara Lennie.

     Voltando de um encontro, eles se acidentam e é então que toda a história acontece. É uma história que surpreende nos detalhes.

     A atriz Ana Wagener, que interpreta a advogada, é a peça chave para desvendar tudo o que realmente aconteceu no momento do acidente. É uma mulher firme, que desempenhou um papel muito forte e central no longa.



















       O fato do personagem principal mentir descaradamente, me fez querer relacionar o personagem Adrian, com o transtorno da mentira patológica (mitomania).

     O personagem, não tem essa patologia, afinal, ele só mente para livrar-se de uma condenação iminente, porque ele foi responsável pela ocorrência de um acidente e, depois dele, uma série de crimes com omissão de socorro e ocultação de cadáver, inclusive. As mentiras inventadas por ele, foram para encobrir uma série de outras mentiras anteriores. E é importante ressaltar que nem todo mentiroso é um mitomaníaco. 

     A mitomania é o transtorno que faz com que a pessoa minta de forma compulsiva, é caracterizada por ideação fantasiosa de uma história ou de um personagem. Os sujeitos contam frequentemente histórias inverídicas com o objetivo de ganhar a auto-valorização.

     Normalmente são pessoas que se gabam por se dizerem ser ricas, terem autoridade, fama, entre outras coisas, mas quando são pegas mentindo, ficam até agressivas e como consequência, contam novas mentiras. Os mitomaníacos mentem por gostarem de ser o centro das atenções e por isso exageram no relato de suas histórias, inventando fatos que não aconteceram. Geralmente são indivíduos manipuladores, podendo também ser inseguros, mentindo justamente para sentirem-se mais valorizados e estimados. 

      O mitomaníaco se vale de um discurso crível e plausível, motivado por questões internas, não constituindo em seus relatos, elementos utópicos e irreais. Um mitomaníaco jamais vai dizer que viu um lobisomem, o papai Noel, ou algo do tipo. 

     A mitomania tem diferentes causas, quando não há um quadro de um transtorno maior como a bipolaridade, por exemplo, sua causa pode ser uma maneira do sujeito sentir-se mais seguro socialmente ou por não querer revelar como ele realmente é, com seus erros e falhas, com suas fraquezas e vulnerabilidades.

     Neste caso, o tratamento é feito exclusivamente com terapia. Onde o terapeuta investiga questões relativas à autoestima e eventos traumáticos na vida da pessoa.





E então, você gostou de saber sobre mentira patológica (mitomania)? Ficou interessado(a) no filme “Um contratempo? Conhece algum mitomaníaco? Qual outro filme que você poderia relacionar com a mitomania? Conta pra MISS.

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MORANA, Hilda. Psiquiatria Forense – A partir do caso da advogada brasileira na Suíça.Psiquiatry online Brasil. Fevereiro de 2009 - Vol.14 - Nº 2

22/09/2017

Reificação

       


Recentemente vi a propaganda de um site de relacionamentos em que no slogan tinha a silhueta de uma mulher colocando um homem dentro de um carrinho. Quando fui ler a descrição, dizia o seguinte: “O aplicativo de relacionamento mais divertido que você já viu.”
Nesse aplicativo, há um cardápio criteriosamente pensado para atender todos os gostos: Musculosos, barbudos, rastafári, black power, mauricinhos, tatuados... E estas especificações eram chamadas de catálogos.
Parece engraçado, mas na verdade é ridículo! Os termos utilizados no aplicativo como “produto, carrinho, adoção, catálogos, saudão, loja, embalagem, prateleira, lista de compras...” para mim são repulsivos e inaceitáveis quando se trata de seres humanos.
A palavra reificação dentre alguns outros significados, é o ato de transformar em coisa, é objetivar; representar o ser humano como objeto físico sem suas individualidades; transformar o homem em coisa, em objeto de consumo. Esse aplicativo eleva a coisificação do homem a um nível extremo. 
A explicação que a administradora do aplicativo deu-me quando comuniquei meu incômodo foi a seguinte: “Esses termos usados no app são utilizados exatamente de forma irônica, mostrando como seria a sociedade se a gente trocasse os papeis na hora da paquera! Nosso objetivo não é objetificar os caras, mas mostrar que as mulheres têm o poder de escolha, têm os mesmos direitos.”
Sei, não! Retribuir a forma grotesca de como as mulheres, às vezes são tratadas, não é bom sinal. Aliás, essa tentativa de igualdade para mim é dispensável, pois, quem não se incomoda em comprar o outro, é porque não se incomoda em se colocar à venda.
Assim como roupas, sapatos, bolsas, objetos, livros... Estamos sujeitos a avaliações como se fôssemos coisa, como se fôssemos objeto. Qualquer outro aplicativo de relacionamento pode não usar esses conceitos de mercado, mas tem funções semelhantes. No entanto, eles existem porque nos acostumamos a nos escondermos atrás da tela, pois, esta facilita a comunicação e o descarte, já que poucas pessoas aprenderam a lidar com os seus próprios sentimentos e os sentimentos dos outros. E também esses aplicativos servem para possibilitar a discriminação do que se almeja em relação a um parceiro somente pelas características físicas e nem sempre pelas características de sua personalidade.
A sociedade é levada a consumir e transformou o homem em objeto de consumo. O que você faz com um produto? Usa conforme a sua vontade e depois que ele não lhe serve mais, você o descarta!
Essa descartabilidade humana se tratando do mundo virtual ou não, trouxe um empobrecimento de nossas relações afetivas, nossa forma de nos relacionarmos com o outro está tão banal que fica difícil de estabelecer vínculos, pois com a facilidade que estabelecemos os laços, também o desfazemos e, não criar vínculos, pode acarretar conflitos psicológicos, uma vez que é na relação com o outro que nos construímos que nos desenvolvemos e que existimos.

10/12/2016

Deslocamento

         
Ilustração: Ator Gary Dourdan

         Eu não o ouvia mais, ele havia perdido a fala. As palavras de Serafim que perpetuavam em minha mente eram as mesmas de 32 anos atrás. O único som que ele conseguia proferir eram gemidos de dor e quando eu me levantava e verificava a fonte das dores, era como se a minha presença milagrosamente já aliviasse algum mal estar.

          Uma vez demasiadamente temeroso, quando já havia voltado ao quarto que havia improvisado para ele muito mais vezes do que nas outras noites, minhas pálpebras pesavam tanto que não vi outro jeito a não ser o de me colocar ao seu lado na cama. Embora a poltrona fosse confortável, eu não dormi. Serafim parara de gemer e eu remexia as minhas memórias involuntariamente e então, quem passou a gemer internamente com dores profundas fui eu. Isso se repetia com tanta frequência que eu concluía dramaticamente que me fazer passar a noite em claro com o pensamento atribulado pelas dores do passado, era uma forma de Serafim terminar a vida sendo sádico comigo.
          Toquei em seu peito verificando sua respiração. Era tão suave que quando ele estava de olhos fechados eu duvidava que esta ação natural ocorria. Ficava aliviado quando constatava que sim, a não ser pelo fato de saber que lá no fundo, minha preocupação contínua era que eu o perdesse mais uma vez, agora que o tinha de volta. E isso me assustava, eu não queria ter essa proximidade. Julgava que aquele homem não era digno de um átomo do meu afeto. Mas era incontrolável e se aflorava crescendo incrivelmente um pouco mais a medida em que o passado ia ficando a cada novo dia, mais no passado.
          Ainda com as mãos sobre seu tórax eu ergui minha coluna lentamente quando a campainha tocou. Ele abriu os olhos e nos fitamos por longos segundos até ela tocar novamente. Eu respirei fundo, peguei o terno e a mochila ao lado da cama, na cômoda estava um envelope ainda lacrado que eu alisei assim que peguei nas mãos. No dia anterior eu não quis abri-lo, na realidade, eu tinha muito medo da verdade, mas naquele momento era necessário, porque eu não tinha alternativa a não ser descobri-la logo e me voltando para Serafim com um sentimento que eu não saberia jamais transcrever depois de olhar minuciosamente o conteúdo do envelope, fui abrir a porta para Glaucia que impaciente, havia tocado a campainha pela quarta vez.
         – Porque demorou tanto a abrir? – Eu olhei no relógio, já havia se passado uns 15 minutos de seu horário – Passei na padaria e... Mas sua cara está péssima – ela havia notado. Expliquei que não havia dormido a noite toda. Ela simulou uma expressão sofrida para logo depois desmanchá-la em um sorriso questionando se eu havia feito o café – Hoje vou dormir aqui. Você vai poder descansar melhor, não quer esperar pra tomar café comigo? – disse amigável tentando arrancar em vão uma expressão de conforto. Eu só balancei negativamente a cabeça saindo apressado, precisava urgentemente encontrar Olívia.
           Ela morava um pouco distante, mas eu levaria um tempo bem maior do que o normal para chegar à sua casa uma vez que me era impossível dirigir sem parar inúmeras vezes para assimilar o que estava acontecendo. Lembrei de quando começamos a namorar, foi difícil assumir mais um relacionamento sério, pois, eles sempre acabavam mal. Aliás, eu queria muito me livrar dos ciúmes, mas era inevitável, eu não sabia exatamente o motivo, mas eles faziam parte de mim e era exatamente o fato dos meus relacionamentos nunca darem certo. Olívia tinha um olhar encantador e um jeito sensual, embora sutil como a sombra. Era tão questionadora... Assim que começamos um relacionamento sério, ela quis saber da minha vida desde que eu era um feto. Eram tantas perguntas e, muitas delas, em relação a minha infância, ficavam sem respostas porque eu não conseguia lembrar esta parte da minha vida sem que meu semblante ficasse distorcido. Estávamos juntos há pouco mais de dois anos, era o meu relacionamento mais longo, seus gestos contavam-me segredos sobre si que ela mesma desconhecia, mas ela pouco sabia sobre meu passado.
          Um dia caminhando com Olívia pelo Parque das Águas, vi um rosto conhecido e fechei o semblante mais nublado que pude para que não me reconhecessem ou para que aquela minha expressão fosse um obstáculo para possíveis abordagens indesejáveis. Olívia notou minha mudança repentina e perguntou-me o que estava ocorrendo. Não fui capaz de responder. A resposta viria em seguida. Meus sinais de "quero você longe!" foram ignorados.
          Nina era tão alegre e doce, que eu não pude sustentar a expressão de arrogância nos olhos quando ela se aproximou e me abraçou instantaneamente dizendo que eu não havia mudado nada. Perguntou-me se ainda encontrava alguém do abrigo. Ligeiramente balancei a cabeça negando. E ela citou o nome de uma amiga que frequentava minha casa, a qual Olívia conhecia bem, fazendo-a apertar os olhos tentando juntar as informações e tirar a conclusão de que eu estivera em um orfanato e que conhecia Nina e essa amiga de lá. Nina irrompeu um mar de informações que eu não havia pedido sobre os antigos membros do orfanato que ela ainda mantinha contato, chacoalhava um bebê que dormia em seu colo e informou que seu marido estava por perto com seus outros dois filhos, apontando na direção do outro lado do lago. Quando ela finalmente notou que eu não estava correspondendo sua alegria em reencontra-me e respondendo de forma monossilábica todas as perguntas que fazia, finalmente deu adeus e ainda sorridente afastou-se.
          Fixei os olhos em meus sapatos assim que sofregamente sentei no banco úmido do parque. Olívia não quis molhar o vestido e se pôs em pé ao meu lado ocultando com angústia um monte de perguntas que eu tinha certeza que ela gostaria de fazer-me naquele momento. Mas Olívia devia mesmo ser de outro mundo, pois, quando Nina se foi, ela percebeu que minha aflição em relembrar o passado era maior que a aflição de sua curiosidade. Ela roía as unhas da mão esquerda todas juntas demonstrando um nervosismo fora do comum, não sabendo como começar a questionar ou se deveria fazer isto naquele momento.
           Depois de longos minutos de costas, sentou-se ao meu lado e me abraçou encostando a cabeça no meu ombro. Como prêmio por entender meu silêncio, eu achei que deveria contar-lhe tudo e ali mesmo no Parque entre os tranquilizantes verdes lubrificados pela poeira da chuva que houvera caído, comecei a desengasgar cada dor.
          20 de julho de 1967, eu estava no quarto que sempre havia sido meu há 9 anos. Meus olhos inchados de tanto chorar pela morte da minha mãe. Eu ainda estava com a mesma roupa que havia ido ao velório.
          Depois que meus avós morreram, Carmem, irmã da minha mãe passou a morar lá no Rio com Serafim, minha mãe e eu. Ela foi a única parente que eu conheci. Naquele momento ela e Serafim discutiam alto na sala e eu sabia que eles estavam falando de mim. Quando o silencio voltou, percebi que meus esforços para entender a discussão me fizeram parar de pensar em meu sofrimento e quando eu retornei a ele, cai inerte na cama entorpecido pela minha dor e foi então que ouvi a porta do quarto sendo aberta com toda força e Serafim gritando comigo de um jeito insuportavelmente pior do que das últimas vezes:
          – Sai! Sai daqui agora! – Carmem tentou segura-lo suplicando a ele para se acalmar porque os vizinhos poderiam ouvir. Meu coração parecia que iria explodir. Ela olhou para o meu semblante e pediu calma garantindo falsamente que tudo iria ficar bem. Não iria! Ela sabia. Havia acabado de perder minha mãe e estava prestes a perder um pai dali a poucos dias de uma forma incrivelmente pior.
          Depois de alguns longos e aterrorizantes minutos eu ouvi um barulho de carro arrancar e corri para sala. Carmem saiu do banheiro ainda de toalha dizendo que do jeito que ele saíra, algum acidente poderia acontecer.
          – O que esta acontecendo, tia Carmem?
          Ela se deu conta que estava só de toalha, me pediu pra esperar e voltou correndo para o banheiro.
          Já fazia mais de 40 minutos que eu esperava encostado na porta do banheiro, sentado no chão, abraçando os joelhos. Enterrei o rosto quando soube que ela também chorava baixinho.
          Quando ela saiu, estava com roupa de festa. Eu sabia que era uma roupa de festa, pois há algumas semanas atrás, quando ela tirou o vestido vermelho de dentro da sacola, ela falou para mamãe que comprara um vestido lindo de festa. E eu o reconheci naquele momento. “Para qual festa tia Carmem estaria indo depois de enterrar a irmã?” Pensei. Ela foi até o quarto e voltou com a bolsa presa aos ombros dizendo que precisava ir.
          Eu rasguei um pedaço do vestido de festa da Carmem implorando pra que ela não me deixasse sozinho. Quando finalmente nos cansamos, ela me puxou para o quarto, enxugou minhas lágrimas pedindo pra que eu tomasse um banho, mas, eu desesperado que ela aproveitasse esse momento para ir embora, somente troquei de roupa. Ela me deitou na cama, trocou os meus sapatos e deitou-se ao meu lado. Eu lutei com toda força para não dormir, mas o que eu mais temia aconteceu. Quando o sol se levantou pela manhã, eu estava sozinho.
          Serafim voltava fedido e bêbado após dois dias fora de casa. Mas eu achei seus olhos mais calmos e acreditei que tudo ficaria bem na medida do possível até que, ele me sentou no braço do sofá, se abaixou na altura de meus olhos e foi falando com os olhos verdes mais frios que eu já vi:
          – Você não é meu filho! Só aceitei você aqui porque eu amei a burra da sua mãe mais do um homem deve amar uma mulher. Ela viajou para Sergipe e ficou lá por duas semanas e voltou grávida de você. Mas você não é e nem nunca será meu filho. Agora que ela está morta... Eu quero que você se vire. Arrume suas coisas que vou te levar para um orfanato. Você também morreu pra mim.
          Antes da morte levar minha mãe, ela já não vivia. Serafim abria feridas nela com as palavras pontiagudas que proferia, embora sempre achei que elas doessem muito mais em mim. Mamãe suportava tudo aquilo porque não tinha para onde ir doente como estava e também porque socialmente, na época, determinadas humilhações eram frequentes e deveriam ser toleradas silenciosamente pela mulher que as sofresse. Principalmente se esta fosse negra, pobre e sustentada pelo marido branco. Minha mãe não tinha fala, minha mãe não tinha voz e Serafim era o herói do bairro, ninguém imaginava que ele humilhava a mulher que tinha câncer só pelas supostas traições. Toda vez que ele levantava a mão para ela insinuando alguma agressão física, magicamente se continha e eu agradecia à vida por isso, embora, ele sempre inventava algum motivo para descontar toda sua raiva em mim.
          Contudo eu nutria bons sentimentos por ele, pois era isso que minha mãe cultivava dentro de mim sempre que eu apanhava dele. Porém, naquele momento que ele disse que eu não era seu filho, me senti grato de alguma forma, apesar de estar em choque e um pouco confuso em como seria minha vida dali para frente. Fiquei de certa forma satisfeito por aquele homem que sempre arrumava um jeito de marcar meu corpo com violência, não ser meu pai, embora eu tivesse muito medo do que iria me acontecer.
           O que minha mente tentava expulsar com repulsa, mesmo depois de ver Carmem e Serafim tão próximos várias vezes, veio à tona no momento em que saí no portão com a mochila nas costas e a vi sentada no banco do carona do Hillmann Super Minx, lixando as unhas. Eu interpretei que Carmen se lixava para o que eu estava sentindo também, embora, assim que me viu tentou não me encarar nos olhos, parando imediatamente a ação.
           No caminho, ele me contava as estapafúrdias – era essa a palavra que ele usava com ênfase e muito ódio – que minha mãe fazia quando ia para Sergipe. Serafim contava com detalhes todos os casos de minha mãe, que segundo ele, foram relatados por Carmem. Ela balançava a cabeça confirmando cada mentira, que na verdade, haviam sido primeiramente inventadas por ela. Eu tratava de limpar veloz e audaz cada lágrima que insistia em descer, como se fosse proibido que elas caíssem, até que elas rolavam muito mais ligeiras que minha rapidez em enxugá-las.
           Eu não conseguia lembrar da minha mãe assim. Eu sabia que ela amava Serafim. Sabia, sim. Quando eu chorava reclamando para ela que eu o odiava, ela sempre dava um jeito de defendê-lo dizendo que na verdade ele era um homem bom. Entendi que minha mãe era grata a ele por algum outro motivo que acabou se confirmando assim que ele parou o carro em frente ao abrigo. Serafim descarregava as palavras como quem atira um fardo ao chão:
          – Sua mãe nem sabia se você era meu ou do tal do banqueiro que comeu ela lá em Sergipe. Agora se você é filho do banqueiro, do padeiro eu não sei. Meu filho é que você não é. Só te aceitei porque ela foi e será a única mulher que amei nessa vida – Carmem tremeu e fez uma expressão enojada seguida por um ódio estampado em cada linha de seu rosto quando ouviu essa última frase.
          Minha mãe sentia-se grata por Serafim cuidar de um filho que ela não tinha certeza se era dele. Por isso, ela o qualificava como um homem bom? Minhas certezas estavam fragilizadas, a não ser por saber que enquanto viveu, minha mãe havia me amado. E saber disso me bastou ou me confortou naquele momento funesto.
           Passei a adolescência planejando minuciosamente em minha mente uma morte bem dolorosa para Carmem e Serafim.
          Até que depois de longos anos, mais precisamente 31 anos, 3 meses e 17 dias, recebi uma ligação de uma senhora que parecia um pouco idosa pela voz. Ela pedia para atende-la à porta pois estava no meu portão. Eu reconheci pela minha intuição, sempre soube de alguma forma que aquele momento iria chegar.
          Carmem mal conseguia andar. Fez menção de me abraçar, mas conteve-se mostrando que sua sensatez não havia se esvaído com a beleza da sua juventude.
          Quando eu a permiti entrar, ela olhou meu apartamento com o mesmo desdém que contornou o olhar em volta do prédio do orfanato que Serafim me levou há alguns anos atrás. O que Carmem levou aos meus ouvidos foi ainda mais terrível que eu imaginava. Cresceu em mim um misto de gratidão pela verdade e pela dor de tê-la ouvido, embora minha alma ficaria novamente marcada pelo relato de uma nova violência que mamãe sofrera. Eu tremia por dentro e por fora contorcendo meus músculos internamente enojado com o que ouvia.
          Contava que em Sergipe havia um banqueiro apaixonado por minha mãe desde a época em que elas eram mais moças. Uma noite, ele foi procurar por ela assim que soube que ela voltou à Ribeirópolis, na cidade em que morava meus avós e minha mãe disse ao sujeito que não a procurasse mais porque havia se casado. Já apaixonada por Serafim, armou uma forma de mamãe ficar sozinha com o tal do banqueiro e segundo as informações do homem, eles teriam se relacionado. Mamãe confirmou a história e foi obrigada por Carmem a repeti-la à Serafim assim que descobriu que estava grávida um mês depois.
           – Eu não conseguia pensar em outra coisa, a não ser em ter o amor que Serafim dedicava à sua mãe todo pra mim – minha voz sumira, eu simplesmente fui incapaz de dizer uma única palavra – Serafim nunca deixou de amar sua mãe, ele só me quis quando ela morreu. Nós nunca fomos amantes – eu não consegui acreditar nessa última parte – ele só tinha olhos pra ela e eu nunca fui amada por ninguém. A inveja é algo macabro. Eu amava a sua mãe, foi ela que me permitiu morar lá no Rio com vocês – eu me levantei e ela se recolheu com medo do que eu poderia fazer. Serrei os punhos e minhas veias ficaram saltadas. Mas o pior ainda estava por vir. Quando eu me acalmei e me sentei para que ela pudesse terminar o seu relato, ela disse que precisava reparar os erros e que precisava de perdão porque conviver com aquela culpa a fez adoecer como adoeceu minha mãe – Sua mãe não traiu Serafim, o banqueiro a usou com força, entende?
            Lembro que minhas mãos foram à cabeça e eu fiz um esforço grande para não gritar. Minha vontade era de pegá-la pelo braço e enxotá-la do meu apartamento.
          – Você não imagina o quanto isso me dói – ela prosseguia sem que eu fosse capaz de encará-la, era como se meu semblante pudesse se petrificar ao encarar a monstruosidade que era Carmen contando todas aquelas humilhações a qual submeteu minha mãe.
          “Não, sua estúpida! Minha mãe morrera de câncer e fui abandonado pelo cara que eu achava que era meu pai até então, descobri que minha tia fez de tudo para destruir a minha família e descobria que era fruto de um estupro. Não! Isso doía infinitamente mais em mim.” pensava atormentado.
          – Ela me falou isso com muita vergonha dias antes de partir e me fez prometer que eu jamais contaria a alguém. Eu nunca fui capaz de dizer isso a Serafim porque eu o amava cegamente. Era, era algo... macabro! – repetiu como se com aquele termo pudesse transferir sua culpa para um outro ser.
          Não consegui dizer nada àquela mulher aos prantos à minha frente. Carmem tentava, como se fosse possível, justificar que fazia o possível para  destruir o casamento de Serafim com minha mãe por ela ser a filha mais amada por meus avós e que o que mais a motivou foi a inveja, principalmente pelo amor que Serafim tinha por ela, por ela ter uma família.
          Carmen jamais saberia identificar meu timbre de voz, pois eu fui incapaz de dizer algo, embora meus pensamentos estivessem gritando, minhas cordas vocais estavam paralisadas. Desde a época em que estava no carro indo para o orfanato, não precisava mais do esforço de conter as lágrimas, pois, após aquele dia, elas não mais caíram. Eu só fiquei longos momentos com a cabeça baixa tentando entender o motivo de minha mãe ter sofrido tanto.
           Quando percebi que ela havia terminado seu relato, simplesmente levantei-me, abri a porta expulsando-a do mesmo ambiente que eu e, assim que ela atravessou a porta, estendeu a mão para mim e me deu um papel que estava dobrado. Fechei a porta sem me despedir e desejava pôr fogo naquele apartamento em que Carmem colocou os pés, recolher aquele papel de suas mãos, era um esforço descomunal, no entanto, eu fiquei refletindo por dias no conteúdo que ele trazia.
            Até que alguns meses se passaram e eu tomei uma decisão. A mais difícil da minha vida e, parado em frente à casa de repouso, fiquei longos minutos ali parado conferindo o endereço e me perguntando se aquilo estava certo ou não. Serafim não iria ter o fim que eu havia planejado para ele. 
            Levou alguns meses para que eu o trouxesse para São Lourenço. Carmem que era sua esposa, assinou os papéis o liberando para passar o resto dos seus dias com a pessoa a quem ele desprezou. Foi uma missão quase impossível e eu não sei o motivo de eu ter lutado tanto por isso. Serafim não andava, não saía da cama e se alimentava pela sonda. Não era mais belo e forte como antes, eu jamais iria maltratá-lo como ele me maltratou. Eu nunca iria abandoná-lo como ele me abandonou. No dia em que eu o trouxe para casa, eu transpirava tanto que desconfiei que não era suor, mas lagrimas que saiam pelos meus poros já que eu as havia segurado por tanto tempo. Para Olívia, ele era apenas o ex marido da minha mãe. Então ele fez alguns exames de sangue e eu fiz um novo pedido. Teste de paternidade. Levava agora o resultado positivo para Olívia. Serafim era meu pai.

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Deslocamento: Em psicanálise é um mecanismo de defesa que está relacionado a uma troca no sentindo que uma dada representação muda de lugar e passa a ser representada por uma coisa ou uma pessoa.