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17/04/2019

Série Tidelands, Temporada 1 - O processo de Categorização Social


Título: Tidelands
Direção: Toa Frase
Autores: Stephen M. Irwin e Leigh McGrath
Temporada 1
Ano: 2018
Gênero: Drama, Aventura
Elenco Principal: Charlotte Best (Cal McTerr),

                           Elsa Pataky (Adrielle Cuthbert),

                           Aaron Jakubenko (Augie McTerr),

                           Marco Pigossi (Dylan).


     Produzida na Austrália, a série conta a história de um grupo chamado Tidelands que possui alguns poderes especiais por serem filhos de sereias. Na série, as sereias são criaturas que com o seu canto atraem os pescadores para o mar e, após terem relações com eles, engravidam, os matam e abandonam seus filhos nas rochas. Neste seriado, as sereias se apresentam como monstros do mar e não têm uma aparência agradável como em outras histórias do gênero. 
     A série se inicia com Cal McTerr (Charlotte Best) que após sair da prisão, tenta retomar sua vida na cidade onde morava e, ao descobrir que possui poderes especiais como os Tidelands que são metade humano e metade sereia, vai até o grupo a fim de descobrir mais sobre si mesma. 
     Os Tidelands vivem em uma comunidade isolada da cidade e se sustenta fazendo negócios com os pescadores locais, que inclui o comércio de drogas. A líder Adrielle (Elsa Pataky) está disposta a fazer de tudo para proteger sua tribo, no entanto, tem interesses pessoais que esconde de todo o grupo. 

Elsa Pataky como Adrielle Cuthbert, líder dos Tidelands


     É uma série interessante, tem uma história bem aventureira, intrigante, mas há uns excessos tanto em relação à violência, quanto ao cunho sexual, que ao meu ver, são apelativos (todo mundo pega todo mundo), mas talvez faça parte da trama, já que os Tidelands são criaturas sensuais, poderosas e perigosas. 
     O ator brasileiro Marco Pigossi, tem um papel de destaque na série, ele interpreta o braço direito de Adriel. 

Os atores Marco Pigossi (Dylan) e Charlotte Best (Cal McTeer)

     O que possibilita a discussão da Categorização Social através da temática da série, é o conflito enfrentado pela protagonista que teve a missão de descobrir quem ela era, de onde vinha e qual sua verdadeira história de vida. 
     A partir do momento que Cal detecta que possui habilidades sobrenaturais e identifica-se com os Tidelands, diferencia-se dos demais seres humanos. Dessa maneira, é pertinente comentar sobre a Categorização Social. 
     A categorização é um processo que facilita e simplifica a organização dos objetos, pessoas, ideias, acontecimentos, instituições etc, agregando-os em grupos por suas características comuns. Podemos conceituar a categorização social como uma forma sistemática de organização que permite comparar os indivíduos identificando-os e agregando-os. 
     Segundo estudiosos, a categorização social possibilita ao indivíduo saber sua posição na sociedade, por meio do grupo ao qual pertence. Assim, o indivíduo adquire consciência de sua identidade social e esse conhecimento traz significados emocionais. Essa percepção das semelhanças e diferenças pessoais com um determinado grupo, recebem os nomes de assimilação intracategorial, que se refere a minimização das diferenças e a diferenciação intracategorias que é a maximização das diferenças. 
     A categorização social representa, portanto, uma atividade cognitiva que envolve o agrupamento (formação de categorias), o auto posicionamento em uma ou mais categorias (inclusão), a diferenciação entre categorias (contraste), a escolha de um foco central de cada categoria (protótipo) e a determinação das distâncias existentes entre os vários objetos agrupados e o seu protótipo (grau de tipicidade). 
     Como apontou Taifel, grande estudioso desta temática, o indivíduo tende a afiliar-se em um grupo, quando este é capaz de lhe fornecer alguns aspectos satisfatórios para a sua identidade. 
     E a partir desta afirmação, o autor propôs que a categorização social tem 3 componentes psicológicos: Cognitivo, Avaliativo e Emocional. O primeiro é a compreensão do indivíduo de sua pertença a uma categoria social, a segunda é a avaliação que este faz numa dimensão de valor e a terceira se refere as consequências emocionais dos componentes anteriores no indivíduo. Estes três componentes formaram a base da identidade social do indivíduo. 
     Percebe-se estes conflitos na personagem Cal, quando esta descobre não ser um ser humano comum após identificar-se com o grupo Tidelands; assimilar as similaridades existentes entre eles e a diferenciação dos demais humanos, além dos conflitos emocionais decorrentes desta descoberta.


















REFERÊNCIAS:


1- Categorização Social - FamaPsico. Acesso em Abril/2019


2- O Processo de Categorização Social [...] por Mirlene Maria Siqueira e outros autores, 1994. Acesso em Abril/2019

05/03/2018

Cinco lições da telenovela Sou Luna - 1ª Temporada

       Sou Luna é uma telenovela voltada para o público adolescente, onde os personagens cantam, dançam, andam de patins, compõem músicas e se apaixonam com a mesma frequência que o elenco feminino troca as cores do esmalte das unhas. rs     

            O andamento da novela é um pouco arrastado (normal, como todas as novelas), alguns personagens são bastante caricatos, mas o que aprecio é a qualidade das músicas, das coreografias, a atuação, a realidade distinta dos adolescentes que convivo, cenário, figurino, diálogos bem próximos ao real, a trama romântica e as mensagens reforçadas de superação, autoestima e coragem.
              Assisti pela Netflix onde está disponível somente a 1ª temporada e as lições que a novela e seus personagens me passaram e que me fizeram refletir foram as seguintes:

1- Ser persistente / LUNA
            A personagem central da história, quando coloca algo na cabeça, ninguém tira. O que é bacana e crível, é que nem sempre ela consegue obter êxito naquilo que almeja, mas Luna não desiste, ainda que a Tamara, sua treinadora ou seu melhor amigo Simón, digam que é arriscado demais ou que não vai dar certo. Ela tenta inovar propondo novos passos às coreografias mesmo com pouco tempo de ensaio, arriscando acrobacias complexas demais a fim de superar-se e não importa o que a Âmbar faça para detê-la, ela nunca se abala.



2- Ser humilde, pedir ajuda quando necessário / RAMIRO
            O personagem Ramiro é o típico narciso (o cara que se acha). Sim! Ele dança bem, canta bem, é lindinho! Mas precisa ser mais humilde. Aliás, sabe-se que quando a pessoa apresenta complexo de superioridade, é porque no fundo, se sente inferior. Mas quando Ramiro começa reconhecer o talento das pessoas ao seu redor e a inclusive pedir auxílio para gravações de vídeos, ajuda com figurino, coreografia e composições de músicas, ele consegue de fato ter mais visibilidade e ser muito melhor. Quando Jobim canta: "É impossível ser feliz sozinho..." Por favor, acredite!



3- Confiar nas próprias possibilidades / JIM
            Se por um lado é preciso descer do palco, quando nos inferiorizamos também não é legal. Precisamos confiar em nossa capacidade, compreender nossas habilidades, ter consciência daquilo que fazemos bem e em que somos bons. Nem se sentir o melhor, nem se sentir o pior. Isso se chama equilíbrio! A todo momento, Jim reconhecia seu talento para uma montagem coreográfica e não se detinha para oferecer ajuda, nem se escondia quando tinha a oportunidade de mostrar os passos que havia criado.




4- Valorizar quem está ao seu lado / JIM e YAM
            É uma dupla com um tipo de amizade que quase não se vê mais. As meninas brigam, sim! Porém, encontram sempre motivos para se perdoarem e voltarem a se falar. Coisa que raramente um adulto faz. Às vezes, os conflitos entre elas ocorriam por questões muito simples e banais, então, a importância do diálogo para uma amizade tão forte, de cumplicidade e lealdade como essa, ficou evidente. O fato, é que elas sabiam que eram especiais uma para a outra e valorizavam isso. 




5- Fazer o que gosta mesmo estando inseguro / NINA
            Essa personagem foi a que eu mais me identifiquei. Principalmente pela sua habilidade na escrita, seus gostos peculiares, diferentes das pessoas de sua idade em relação aos livros e filmes. Também por seu medo e insegurança tanto para revelar sua verdadeira identidade, andar de patins, cantar e falar com o cara que gosta. Curtia muito os diálogos da Nina com sua mãe, as dicas que ela dava para a amiga Luna, as frases que postava como Felicity for Now e os conselhos que recebia do pai. Nina é a personagem que evoluiu ao longo da série e é essa maturidade que a sociedade espera dos jovens.      



– ...então eu estava pensando em abrir uma conta própria. Pra poder escrever o que eu quero e publicar as minhas próprias fotos. Você acha que é uma má idéia, né?
– Não! Como ia achar uma má idéia? Excelente! Seria perfeito! Faça isso! Nem pense! Só faça, Nina!
– E se ninguém me seguir?
– E o que importa? E daí se ninguém te seguir? Não! Não importam as curtidas, não importam os seguidores, o importante é você fazer o que realmente você quer e sente. Se quiser fazer... Você faz! 
(Dálogo de Nina com o pai - Capítulo 19, Temporada 1)

 
E então... Você assistiu ou assiste a série? Ansioso para terceira temporada? Qual o personagem que você mais curte? Não assistia, mas curtiu a postagem? Aprendeu algo? Conta pra MISS!

21/12/2017

Bloqueio

        
Foto meramente Ilustrativa. Fonte: Freepik

             
         Voltava do treino quando recebi a mensagem. Achei tão apelativa... Na época, achava Lúcia a pessoa mais estranha do mundo. Por dentro principalmente. Irritava-me o seu jeito tão sentimental.
         Olhei sua fotografia de perfil e fixando os olhos em sua cicatriz no pescoço, pensei que ela poderia ter tirado de um ângulo melhor. Lembrei-me do acidente e de tê-la ajudado no momento em que ela mesma classificou como o pior de sua vida.
         Depois deste fato, ela passou a chamar-me de anjo. Eu pensava que era por incapacidade dela em pensar em um apelido mais depreciativo. Era a única pessoa que me via dessa forma, apesar de eu jamais permitir que alguém me conhecesse a fundo.
         Se ela soubesse que eu era o oposto do anjo que ela imaginava que eu fosse, iria ser difícil tê-la por perto e, eu não podia me dar ao luxo... Os poucos contatos que eu conservava, eram reservas para quando eu precisasse de alguns favores.
         Enfim... Lúcia, Maya e eu, havíamos nos reunido no mesmo bar que tínhamos frequentado há muitos anos, na época em que trabalhávamos juntos.
         Lúcia, como eu pensava, sempre insuportavelmente sensível, repetia todo o tempo o quanto era bom estarmos ali e o quanto aquele momento era raro.
         Maya contava que havia sido demitida da empresa em que trabalhava como arquivista.
         – É melhor ter paz do que ter dinheiro – falou Lúcia tentando confortar Maya no intuito de fazê-la sentir-se melhor por estar longe do estresse que era seu trabalho, ainda que tivesse problemas financeiros.
         – Você não tem paz se o dinheiro lhe falta – balbuciei mais para mim mesmo, confrontando o consolo piegas de Lúcia que eu sempre achava muito chato. Elas ouviram. Não responderam. Concordaram comigo, só não admitiram.
         Alguns longos segundos de silêncio foram quebrados por Maya que continuou relatando as perdas de sua vida e, dessa vez, falava do término de um relacionamento. Eu apenas balançava a cabeça bebendo a cerveja, fingindo ouvir. Nada disse.
         Lucia que despejou mais uma pérola:
         – Isso era um relacionamento abusivo.
         – Não exagera! – respondeu Maya e em seguida, para se livrar dos conselhos de Lúcia, perguntou sobre minha vida amorosa.
         – Igual como sempre – respondi.
         – Como igual?
         – Inexistente! Minha vida sexual está bem ativa, obrigado! – riram.
         Lucia olhou ao redor e como se julgasse mais feliz do que eu, Maya e o restante das pessoas do local, quase subindo na mesa, falou mais alto que a música que tocava:
         – Já eu, me caso em maio.
         – Com o advogado? – tentando demonstrar desinteresse para que ela aprendesse que aquilo não era uma notícia que mudaria nossas vidas, perguntei olhando por cima dos ombros no intuito de pedir ao garçom uma porção de fritas. Já Maya, simulava um ataque do coração.
         Dez minutos depois de uma história enfadonha e clichê que ela contava como se fosse um romance digno de um Oscar, ela deu um embrulho para mim e outro para Maya, dizendo que foi por isso que mandou mensagem marcando o encontro com nós dois àquele dia.
         Abrimos. Era uma garrafa de vinho para cada. Em um rótulo personalizado, meu nome na garrafa entregue a mim e o nome da Maya na dela, seguido de um pedido para sermos seus padrinhos de casamento.
         Bom, se antes Maya estava simulando um ataque do coração, depois desse momento ela parecia agonizar. Deu um grito agudo, pulou da cadeira e ficou balançando as mãos sorrindo de boca aberta, interpretando se emocionar, olhando para Lúcia que repetiu exatamente as mesmas atitudes.
         Eu nunca tinha recebido um pedido como esses. Pouca coisa se sabia sobre mim, mas o fato de que eu não era muito dado a casamentos, era completamente perceptível.
         Sorri e disse que seria um prazer.
         Eu odiei tanto a minha resposta e aquele pedido, que meu desejo maior era quebrar a garrafa em minha própria cabeça.
         Lúcia abraçou a mim e Maya ao mesmo tempo com braços gigantes e eu não sei exatamente o que se sucedeu logo em seguida, mas certamente eu devo ter julgado tudo muito chato e por isso apaguei da minha memória.
         Lembro da despedida e de ter sentido tanta pena da Lúcia, que assim que ela me olhou sorrindo, se despedindo, não consegui sorrir de volta porque tinha uma certeza muito firme de que aquele sorriso se apagaria dali a alguns meses ou com um pouco de sorte, dali a alguns anos. E aquele sorriso não podia desaparecer já que era uma das poucas coisas realmente verdadeiras nesse mundo. Eu tinha convicção de que todas as pessoas casadas eram infelizes. E realmente aquele foi o último sorriso que eu testemunhei dela, minha última lembrança. Depois daquele dia eu nunca mais a veria.
         Mandei uma mensagem à Lúcia pedindo perdão por ter de viajar a trabalho no dia 2 de maio, data do seu casamento. Ela não sabia que naquela época, eu estava assim como Maya, desempregado. Nem eu, sabia porquê mentia. Lúcia deve ter ficado chateada, a foto de seu perfil sumira junto com a sua insistência em nossa amizade.
         Depois de tanto tempo lembrando e relembrando esse fato, finalmente assumo que toda a minha resistência, foi pela questão de que é difícil ser padrinho de um casamento, quando bem lá no fundo, se quer ser o noivo.  

14/12/2017

Saiba o que é Mitomania e confira a dica do filme: Um Contratempo

Título original: Contratiempo

Gênero: Drama / Romance Policial

Direção / Roteiro: Oriol Paulo

Lançamento: Jan / 2017

Elenco Principal: Mario Casas, Bárbara Lennie, Ana Wagener, José Coronado.






     “Um contratempo” é um filme espanhol super inteligente, de suspense e reviravoltas, que possui uma história intrigante, cheia de mistério com uma narrativa pautada por situações hipotéticas.

     O filme nos lembra que as atitudes que um pai e uma mãe tomam para fazer justiça por um filho, podem não ter limites, bem como as atitudes que um homem influente é capaz de tomar para salvar sua própria pele, seu nome, sua empresa e sua família.

     Mario Casas interpreta Adrian, um jovem empresário de sucesso, rico e que tem um caso extraconjugal com a fotógrafa Laura, interpretada pela atriz Bárbara Lennie.

     Voltando de um encontro, eles se acidentam e é então que toda a história acontece. É uma história que surpreende nos detalhes.

     A atriz Ana Wagener, que interpreta a advogada, é a peça chave para desvendar tudo o que realmente aconteceu no momento do acidente. É uma mulher firme, que desempenhou um papel muito forte e central no longa.



















       O fato do personagem principal mentir descaradamente, me fez querer relacionar o personagem Adrian, com o transtorno da mentira patológica (mitomania).

     O personagem, não tem essa patologia, afinal, ele só mente para livrar-se de uma condenação iminente, porque ele foi responsável pela ocorrência de um acidente e, depois dele, uma série de crimes com omissão de socorro e ocultação de cadáver, inclusive. As mentiras inventadas por ele, foram para encobrir uma série de outras mentiras anteriores. E é importante ressaltar que nem todo mentiroso é um mitomaníaco. 

     A mitomania é o transtorno que faz com que a pessoa minta de forma compulsiva, é caracterizada por ideação fantasiosa de uma história ou de um personagem. Os sujeitos contam frequentemente histórias inverídicas com o objetivo de ganhar a auto-valorização.

     Normalmente são pessoas que se gabam por se dizerem ser ricas, terem autoridade, fama, entre outras coisas, mas quando são pegas mentindo, ficam até agressivas e como consequência, contam novas mentiras. Os mitomaníacos mentem por gostarem de ser o centro das atenções e por isso exageram no relato de suas histórias, inventando fatos que não aconteceram. Geralmente são indivíduos manipuladores, podendo também ser inseguros, mentindo justamente para sentirem-se mais valorizados e estimados. 

      O mitomaníaco se vale de um discurso crível e plausível, motivado por questões internas, não constituindo em seus relatos, elementos utópicos e irreais. Um mitomaníaco jamais vai dizer que viu um lobisomem, o papai Noel, ou algo do tipo. 

     A mitomania tem diferentes causas, quando não há um quadro de um transtorno maior como a bipolaridade, por exemplo, sua causa pode ser uma maneira do sujeito sentir-se mais seguro socialmente ou por não querer revelar como ele realmente é, com seus erros e falhas, com suas fraquezas e vulnerabilidades.

     Neste caso, o tratamento é feito exclusivamente com terapia. Onde o terapeuta investiga questões relativas à autoestima e eventos traumáticos na vida da pessoa.





E então, você gostou de saber sobre mentira patológica (mitomania)? Ficou interessado(a) no filme “Um contratempo? Conhece algum mitomaníaco? Qual outro filme que você poderia relacionar com a mitomania? Conta pra MISS.

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MORANA, Hilda. Psiquiatria Forense – A partir do caso da advogada brasileira na Suíça.Psiquiatry online Brasil. Fevereiro de 2009 - Vol.14 - Nº 2

10/07/2017

Amnésia

Este conto foi criado à partir do desafio imagem/palavra do grupo: Café com Blog. A palavra recebida foi: LEMBRANÇAS. Além da palavra recebida, a reportagem do Programam Fantástico sobre o roubo dos queijos também foi inspiradora. 

Fonte: Grassroots Gourmet














         “Preciso escrever” pediu quase implorando
Mas não teve jeito, minha vontade sempre prevalecia.
No entanto, tivemos que retornar assim que chegamos ao restaurante. Um vendaval muito forte fazia com que algumas pessoas que insistiam estar ali, jantassem forçosamente à luz de velas. Eu não quis ficar. 
Ele me abraçou na mesma hora que chacoalhou o guarda-chuva para o ar e ele se abriu. Fomos em direção ao carro e seguimos para casa debaixo de uma chuva forte.
Senti-me culpada por ter insistido. Porém, ele não reclamou, não fez cara feia. Raramente demonstrava estar chateado com algo, principalmente comigo. Simplesmente assim que chegamos, se pôs em frente ao notebook para escrever. Eu invejava tanta criatividade. 
Alguns ossos do meu corpo haviam sido reconstituídos por ele. Havia sido cirurgião. Eu sentia fortes dores de cabeça e os remédios que tomava, eram por ele administrados religiosamente. Ele nunca se afastava de mim, mantínhamos uma vida solitária em Serra da Saudade. Uma cidadezinha de Minas Gerais com menos de mil habitantes.
Era um homem demasiadamente bom. Havia sido doutrinada a amá-lo e não havia um único dia da minha vida que eu não o amasse com tanta intensidade. 
Ele dedicava-se a escrever. Alguns livros eram para fins científicos, assinados pelo seu verdadeiro nome. Outros levavam pseudônimos famosos, alguns deles femininos.
Eu odiava ler! Mas me esforçava em sentar e conhecer seus textos lendo-os de forma muito investigativa. Como se pudesse compreender como ele possuía uma imaginação tão fértil.
Mas a história de quando nos conhecemos era o meu conto favorito. Achava tão surpreendente quanto intrigante. Ele contava da seguinte forma: 

Passávamos uns dias em La Fattoria dei Monaci, uma espécie de grande fazenda que ficava próxima ao caseifício produtor de parmigianno-regianno, localizado na província de Modena, mais precisamente na Emília-Romanha, Itália. Você viajava com sua irmã e eu com um grupo de amigos da faculdade.
No início de uma bela noite, no céu as estrelas repousavam enquanto eu me movia deixando meu corpo leve ser comandado por meus pés, eles seguiam instintivamente o caminho já previamente traçado pelo destino. Admirando o manto brilhante lá no alto, eu distraído, seguia sem perceber que uma das estrelas estava bem próxima. 
Assim que a encontrei, tive a certeza de que nenhuma outra visão no mundo me seria tão plena. A estrela estava estendida na grama, envolta por um tecido fino, com uma fenda na parte de baixo, que deixava à mostra a maior parte de seu formato, uma de suas mãos enrolavam uma mecha dos seus próprios cachos.
Perguntei se podia fazer-lhe companhia. Descobri que você também era brasileira. Conversamos sobre as músicas que gostávamos de ouvir. Nossos gostos eram bem parecidos. Você falava com muito entusiasmo de sua última viagem ao Norte do Brasil, de como era viver na cidade maravilhosa e me ouviu atentamente sobre Eneida, o poema épico do poeta Virgilio.
Meus amigos tinham ido à Thinkstock, a praça principal e sua irmã saíra com um rapaz que havia conhecido na viagem. Eles estavam desde cedo em Ravena.
Ficamos conversando por longas horas até perceber que o silêncio na fazenda havia ficado tão forte quanto o vento frio que cortava nossos rostos. Mas quando meu braço envolveu seus ombros e você se encolheu para aquecer-se em meu abraço, um barulho ensurdecedor vindo da cozinha do local encheu nossos ouvidos.
Fomos em direção a ele.
Gritamos.
Tudo estava escuro.
Até que surgiu à nossa frente um homem alto e careca, com um bigode enorme, trajando um dólmã branco, na cabeça um toque blanche e que se apresentou a nós como Enrico Montanari.
Ele nos cumprimentou cordialmente embora seu olhar trouxesse o questionamento sobre o motivo de nós dois estarmos ali àquela hora.
Nos convidando para adentrarmos à cozinha, ele disse que vinha do caseifício, e que além de maestri casari era também o dono da fazenda. O homem extremamente gordo e muito forte, trazia nas mãos duas fôrmas de queijo.
Olhamos aquilo muito admirados, pois, as fôrmas pesavam uns 40 quilos cada. Uma delas ele abriu na hora com um machado não tão limpo e nos ofereceu abrindo um vinho, comendo do queijo com tanta rapidez, que era como se não fosse comer nunca mais na vida.
Em seguida colocou o restante do queijo em uma sacola, e pôs a sacola junto com outras 3 ou 4 fôrmas de queijo parmigiano-reggiano em um carrinho. Pediu para que nós o esperássemos ali que nos levaria ao local onde os queijos ficavam guardados. 
Tamanha era a rapidez do homem no consumo do queijo, que ele se ausentou deixando grossos pedaços dele no chão.
Eu recolhi um pedaço da embalagem da faixa de marcação e percebi que a peça que o Sr. Montanari estava a consumir, já tinha uns sete anos de fabricação. Por isso, era valiosíssima.
Esperamos um bom tempo até que ele voltasse, estávamos desejosos de conhecer a produção.
Até que, chegou uma senhora assustada nos perguntando o que estávamos fazendo ali.
Quando ela viu os pedaços de queijo recortados e comidos espalhados pelo chão, ela começou a gritar desesperadamente e nós explicamos que estávamos ali junto com o Sr. Enrico Montanari, o dono da fazenda.
Assim que ouviu esse nome, o semblante da velha deformou-se em uma expressão espantada, pôs a mão no coração e desmaiou.
Antes ela havia tocado um botão preso à parede da cozinha, fazendo com que os seguranças aparecessem ao toque desse botão que fez soar uma campanhinha e, tendo sido chamado a polícia, fomos levados para a delegacia.
Lá soubemos que o Sr. Montanari era o ex-marido da Dona Fátima, o herdeiro de La Fattoria dei Monaci e que havia falecido há mais de quinze anos.
Só fomos liberados porque Dona Fátima acreditou em nós e suspendeu a investigação dando a certeza de que era o espírito do marido que não havia abandonado sua fazenda. Cético, o delegado arquivou o caso meio a contragosto, não sabendo se ria da situação ou se ficava furioso.
Embora, anos mais tarde soubemos que o funcionário que era sim um mestre dos queijos, foi o autor dos roubos naquele dia. Porque a aparição do tal espírito não se sucedeu só naquele dia. Uma forma de parmiggiano-reggiano, vale uns 500 euros. É um dos queijos mais caros do mundo, ainda fabricado quase da mesma maneira que há milênios atrás.
A partir do que passamos naquela noite em Modena, decidimos que não podíamos viver separados, e passamos a viajar juntos: Anatólia, Savran, Bruges, Kalgoorlie, Kelibia... Nosso amor se fortaleceu, nós nos casamos e fomos morar juntos no Sul do nosso Brasil.

Uma outra história, Abílio contava mais breve que a primeira, com os olhos distantes e marejados, parecia muito dolorosa a ele essa lembrança:

Sabe meu amor, como ninguém neste mundo tem o direito de ser feliz como éramos, o mesmo destino que nos uniu de forma tão louca, também nos deu um obstáculo para ser superado.
Havia uma época em que eu trabalhava muito no hospital e você se sentia muito sozinha. Desejou visitar sua irmã que decidiu depois de um tempo, vir morar próximo a nós. 
Quando você me ligou informando que estava voltando para o nosso lar e que sua irmã te acompanharia no caminho de volta, pois iria passar alguns dias do feriado de carnaval conosco, foi aí que tudo aconteceu.
Vocês sofreram um grave acidente na BR-386, que culminou com a internação de ambas. Infelizmente sua irmã... 

Ele sempre embargava nessa parte. Era a hora em que contava que minha irmã havia morrido. Abílio classificava os duros anos que fiquei em coma, como os mais difíceis de sua vida, embora só via sentido na vida, porque vivia cuidando de mim.
O hospital havia se tornado o nosso lar e é por isso que ele se aposentou tão logo eu milagrosamente pude ter alta. 
Assim que abri os olhos, ao sair do coma, eu não lembrava de absolutamente nada. Era como se eu houvesse nascido naquele dia. Minha memória estava totalmente apagada. Nem meu nome eu lembrava. 
Abílio ressaltou que eu perdi os documentos quando o carro explodiu e que a minha sorte é que um motorista que passara na hora, retirou eu e minha irmã antes que o carro explodisse.
E ele se encarregou de nutrir minhas lembranças, tendo a missão de fazer eu me “reapaixonar” por ele. Me explicou sobre um passado que eu não recordava de jeito algum.
Reaprendi a andar, a vestir-me, a falar, a comer, a ler, a escrever...
Além de ter que me acostumar com as marcas que o acidente causou em meu corpo e em meu rosto, apesar da casa não possuir espelhos.
Um dia, pedi para ver algumas de minhas fotos para saber como era a minha antiga aparência e tentar talvez lembrar-me de algo. 
No entanto, fui informada de que havia descartado todos os vestígios do meu antigo rosto a fim de proteger-me. E eu achei mesmo que ele não poderia ter feito coisa melhor, embora nos contentássemos em nos vislumbrarmos um no outro.
Vez ou outra pedia a Abílio para me repetir as mesmas histórias ou dizer como haviam sido as viagens para as cidades que ele citava, e que eu não sabia nem a qual países elas pertenciam.
Sem nem sequer esquecer-se de um só ponto, ele contava tudo, fazendo qualquer um crer que possuía a mais absoluta certeza do que dizia.
Contudo, fazia uns 9 anos que eu havia recobrado a memória. Tinha voltado primeiro como um grão de areia e depois ganhado força estrondosa.
O nome dos meus pais, a minha primeira professora, a forma de como eu me comportava quando criança, a idade do meu primeiro beijo, o nome do cara que eu transei pela primeira vez, o motivo de eu ter quebrado a perna na adolescência, o motivo de meu comportamento arredio com as pessoas à minha volta, a educação regrada dada por meus pais... Tudo isso, segundo Abílio, eu havia contado a ele antes de ter perdido a memória. Mas eram fatos que ele inventava sem saber de que eu já lembrava o meu passado e que Abílio, não estava nele.
O fato de eu ter sofrido um acidente, perdido minha irmã e a memória, eram as únicas verdades que Abílio contava. Antes do acidente, eu nem o conhecia. A primeira vez que o vi, foi quando abri os olhos no hospital. Depois do coma.


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La fattoria dei Monaci = A fazenda do monge (Nome fictício)
Parmigiano-reggiano = Queijo parmesão original e muito valioso
Maestre casari = Mestre culinário (especialista no preparo dos queijos)
Caseifício ´= Lugar onde se faz queijo
Toque blanche = Chapéu de mestre cuca
Dolmã = Uniforme de chefe de cozinha

20/06/2017

Filme: Palmeras en la nieve, uma superprodução espanhola

Título original: Palmeras em la nieve
Diretor: Fernando Gonzáles Molina 
Gênero: Drama / Romance
Lançamento: 2015
Roteiro: Sérgio G. Sanchez
Música: Luiz Vidal
Fotografia: Xavi Giménez
Duração: 2h 43m
Elenco Principal: Mario Casas, Adriana Ugarte, Berta Vásquez, Macarena García, Emilio Gutiérrez Caba, Alain Hernández, Celso Bugallo, 
Classificação: Não recomendado para menores de 18 anos 


– Como elas encontram o caminho?
– Nunca esquecemos nossa origem!

Palmeras em la nieve é uma viagem histórica, que apesar das adaptações para a ficção, foi construída através de recordações reais de pessoas que viveram na época da colonização da Guiné Equatorial pela Espanha. 
Antes de tornar-se uma obra cinematográfica, fez sucesso na literatura, tendo Luz Gabás como autora.
Gabás, narra a experiência de seu pai quando aos 24 anos de idade, foi trabalhar na plantação de cacau em Sampaka, na ilha de Fernando Poo, Guiné Equatorial, África do Sul. 
Palmeras em la nieve é um romance muito sensível, com cenas alternando entre passado e presente, interpretadas por atores que a meu ver, possuem elevada qualidade profissional. 
Do elenco, destaco a brilhante atuação do ator Mario Casas e a caracterização de seu personagem para a passagem do tempo. 

“Meu corpo não é intocado, mas meu coração sim. Eu o entreguei a você.”

Todas as histórias de amor são clichês. O que vai definir se a história contada vale à pena, é a forma de como ela é contada. O amor proibido entre Kilian e Bisila e suas diferenças culturais, não são temas originais, vários romances já abordaram temáticas semelhantes, mas a maneira efêmera e intensa de como os dois se apaixonam é o que enternece.
É um filme especial, sobretudo por não abordar unicamente a questão do romance entre Bisila e Kilian, mas por abordar assuntos como a exploração do trabalho, as diferenças culturais e sociais, fazer denúncias sobre a situação social, da época histórica da colonização e também abordar o machismo de forma sutil, entre outros temas. O filme é rico justamente por enfatizar temas transversais.

– Vocês fazem o que querem e não são julgados. Nós temos que esperá-los cansar das folias... E voltem para ter uma esposa fiel em casa, porque há um nome para as mulheres que se comportam como vocês. E se eu me envolvesse com alguém a cada fim de semana? 

Na tribo de Bisila o único casamento válido é aquele onde o homem compra a virgindade da mulher, o qual ela deve ser sempre fiel ao marido e onde o marido nunca deve abandonar sua esposa, apesar das muitas outras que ele venha ter.

“Ela deve ser fiel ao marido como a areia na praia, que só é banhada por um oceano.”

Clarence (Adriana Ugarte) e Iniko (Djedje Apali)

Anos mais tarde a jovem Clarence, filha do irmão de Kilian, vai em busca de tentar compreender a história do passado de sua família e descobre histórias cheias de turbulências e que ainda traz dolorosas lembranças ao povo de Bioko (nome atual de Fernando Poo).
Embora a qualidade técnica da superprodução tenha sido enfatizada de forma unânime, o filme recebeu duras críticas por diversos sentidos. Na verdade há divergências comuns entre as opiniões sobre as atuações do elenco, roteiro, linguagem, mas as críticas mais apontadas foram a falta de mais elementos sobre a colonização, o fato do filme ser muito extenso, o foco no romance e a qualidade expressiva do ator principal. 
A negatividade das criticas ressaltam exatamente aquilo que todo mundo já sabe: O livro é muito mais completo que o filme. E acreditam que toda essa superprodução poderia ser melhor aproveitada.
Bem, acredito que há uma contradição entre as críticas pelo filme ser longo e por ele não abordar mais profundamente as questões mais reais da época da colonização. Afinal, como realizar um filme baseado em um romance de pouco mais de 700 páginas e ainda desejar que ele seja a cópia fiel do livro, mas sem que fique extenso?
Entendo que romances não fazem o gosto da maioria das pessoas, no entanto, mesmo que a história fosse impecavelmente bem contada, ainda seria criticada pelo fato do ator Mario Casas ser mundialmente conhecido por seu trabalho no romance juvenil “Três metros sobre o céu”, e "Tengo ganas de ti", também dirigido por Molina. Sendo assim, por melhor que ele fosse, ainda sim sua atuação seria estigmatizada.
Na minha opinião, os filhos de Bisila não convencem na idade. Essa parte ficou sim muito mal formulada. E também por não deixar claro qual o final que se destinou à sua personagem, entre outros pontos que como todo bom filme, ficam um pouco soltas, embora não comprometam à sua qualidade. No mais, é um filme muito belo e emocionante. 
Abaixo você pode conferir a música original gravada por Pablo Aborán e que foi vencedora do prêmio Goya 2015 e conferir algumas imagens do filme:




– Mais cedo ou mais tarde eles voltarão para nos pegar, não vão permitir que fiquemos juntos.
– Talvez não nos deixem viver juntos, mas nada irá nos separar.